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Fazendeiros da América Latina não querem linhas de transmissão

Vanessa Dezem

30/05/2018 16h25

(Bloomberg) -- Gilson Denardin sempre detestou as imponentes linhas de transmissão que cruzam sua fazenda no Nordeste do Brasil. Então, quando ele ficou sabendo dos planos para colocar mais dois conjuntos de linhas, ele resolveu partir para a briga.

"É horrível", disse o dono de 2.994 hectares de terras cultivadas no Nordeste do Brasil. "Minhas terras se desvalorizam com tantas redes de alta tensão."

Denardin está liderando um movimento local para obrigar as empresas de eletricidade a pagarem mais para os fazendeiros pelo transtorno e ele não é o único a comprar essa briga. No fim do século passado, antes do boom das commodities gerar uma onda de desenvolvimento na América Latina, a oposição à praga da nova infraestrutura de eletricidade era rara. As pessoas queriam eletricidade. Agora que 100 por cento das maiores economias da região têm acesso à eletricidade, o movimento "Not in my backyard" ("Não no meu quintal" ou Nimby'ism, na sigla em inglês), que há muito tempo é a norma na Europa e nos EUA, também está chegando aos poucos na região.

Cada vez mais, donos de terras que vão das fazendas do Brasil até os resorts do México, estão protestando contra um desenvolvimento maior da infraestrutura de energia. Embora separados por milhares de quilômetros, suas reclamações são geralmente as mesmas: usinas elétricas e linhas de transmissão perturbam o horizonte, desvalorizam as propriedades e dificultam as colheitas. E a compensação financeira por esse problema?

"Insignificante", disse Denardin, 54, sobre o pagamento único de 1 real por metro quadrado que recebeu das empresas de eletricidade no ano passado.

Grandes custos

O custo para as empresas de eletricidade latino-americanas e para as economias da região não é pequeno. Embora o acesso à eletricidade tenha melhorado, isso não significa que todos tenham toda a energia de que precisam. A escassez de eletricidade no Brasil tem sido um fardo particularmente pesado para clientes industriais como montadoras e siderúrgicas, cujos custos de eletricidade podem chegar a ser 45 por cento mais caros do que a média global, segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). E embora a economia do México dependa muito da manufatura, o consumo per capita é apenas uma fração do consumo de seu vizinho do norte.

"O Brasil é um país em construção -- não é como na Europa", disse Mário Miranda, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate). "Para o nosso PIB crescer 1 ponto percentual, nossa geração de energia precisa aumentar 20 por cento."

Esse é o principal impulso que está por trás das grandes iniciativas do governo para reforçar a produção de energia e as linhas de transmissão. O Brasil leiloou no ano passado os direitos de construção de 12.400 quilômetros de linhas e planeja realizar mais duas vendas neste ano. O México, que só abriu seus mercados de energia e eletricidade para o investimento privado em 2014, tem planos de aumentar em 15 vezes a capacidade de geração eólica na península de Yucatán, um dos destinos favoritos dos turistas, até 2020. E a Argentina também aumentará a produção de energia renovável com 10 gigawatts de parques eólicos novos -- equivalentes a cerca de 10 usinas nucleares -- até 2025.

As empresas no Brasil e no México terão que intensificar os esforços para manter as pessoas contentes. Proprietários de terras como Denardin são um bom começo. O produtor de milho e algodão disse que ele não aprovará planos para instalar mais linhas de transmissão em sua propriedade a menos que receba um aluguel pelo espaço, em vez de uma taxa única.

"Uma das empresas está ameaçando me processar", disse ele. "Eu não ligo."

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