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EUA precisam de alternativa a universidades: Bloomberg View

Romesh Ratnesar e Clive Crook

04/06/2018 14h12

(Bloomberg) -- Todo ano, milhões de americanos recebem um ativo que, com base no desempenho passado, promete dobrar a renda durante o período de vida deles: um diploma de curso superior.

Conquistar um é motivo de orgulho. No entanto, para a imensa maioria dos jovens, o diploma está cada vez mais fora de alcance. Uma solução é tornar o custo da faculdade mais acessível ? diminuindo o valor da anuidade, ampliando a assistência financeira a alunos pobres e reduzindo o tempo até a formatura. Outra solução também merece atenção.

Autoridades, educadores e empregadores devem oferecer alternativas viáveis à formação universitária formal.

Não há dúvida que um diploma de curso superior ajuda. Pessoas com formação universitária representam um terço da força de trabalho nos EUA, mas quase 80 por cento das pessoas no quintil superior da pirâmide de renda. Em 1979, os salários pagos a trabalhadores com curso superior eram 34 por cento maiores do que os salários pagos a quem cursou apenas o ensino médio. Hoje, o prêmio salarial chega a 68 por cento.

Paralelamente, o valor para cursar uma universidade por quatro anos mais que triplicou ? e o retorno sobre esse investimento vem diminuindo. A renda mediana de jovens formandos em algumas áreas é menor do que no início da década. Quatro a cada 10 pessoas que iniciam uma faculdade não concluem o curso em seis anos.

Se formando ou não, os alunos deixam a faculdade com dívida média acima de US$ 28.000. Muitos ainda estarão amortizando o financiamento estudantil quando passarem dos 40 anos.

A disparada no custo do ensino superior se justificaria se apenas empregos decentes exigissem diploma, mas não é o caso. O número de empregos que pagam pelo menos US$ 35.000 por ano e não exigem diploma de curso superior aumentou de 27 milhões em 1991 para 30 milhões atualmente ? e não só em posições operárias, como indústria, construção civil e transporte, mas também em serviços como saúde, hotelaria e finanças.

Entre esses 30 milhões de empregos para quem tem "habilidades médias", metade paga mais de US$ 55.000 por ano, de acordo com o Centro de Educação e Força de Trabalho da Universidade Georgetown. Para se ter uma ideia, um recém-formado em História tem renda mediana de US$ 43.000. Um estudo da Faculdade de Administração de Harvard concluiu que pessoas sem diploma universitário podem ser contratadas para milhões de empregos adicionais com exigência de habilidades médias ? se os empregadores diminuírem as exigências de formação durante o processo de recrutamento.

Nada disso sugere que as pessoas conseguirão pagar pela educação superior. Empregos que pagam bem e exigem habilidades médias exigem proficiência digital básica, pensamento crítico e capacidade de se comunicar e resolver problemas.

Os estudantes não deveriam se endividar tanto para adquirir essas habilidades. Porém, o ensino médio não é suficiente.

Os governos estaduais precisam desenvolver alternativas a cursos de quatro anos, investindo em rigorosos cursos técnicos e faculdades comunitárias, com foco nas necessidades dos empregadores locais. O Estado do Tennessee fez isso com suas 27 faculdades de tecnologia aplicada. Instituições de ensino deveriam conceder créditos com base em competência ? não presença ? e criar credenciais que reconheçam proficiência no local de trabalho, de modo similar ao "diploma nexus" (que abrange ensino formal, experiência prática e conhecimento passado por especialistas), aprovado pelo sistema universitário estadual da Geórgia. E o Congresso deve permitir que as bolsas Pell, dedicadas a estudantes de baixa renda, sejam usadas em programas de curto prazo, como cursos intensivos de programação ? uma ideia apoiada pelo governo Trump e pelos senadores Tim Kaine (democrata) e Rob Portman (republicano).

Os empregadores também precisam se empenhar mais. Eles dependem demais de ferramentas automatizadas de contratação que exacerbam o viés contra pessoas sem diploma universitário. Para lidar com essa situação, 1.300 empresas fizeram parceria com a organização sem fins lucrativos Opportunity@Work, sediada na capital Washington, para criar uma plataforma de treinamento e certificação para candidatos não tradicionais capazes de preencher vagas no setor de tecnologia da informação.

Fortalecer alternativas educacionais que envolvem o mercado de trabalho requer mais investimento público e coordenação entre as faculdades e o setor privado. Estágios remunerados são comuns na Alemanha e na Suíça, mas raros nos EUA. Apesar do apoio bipartidário a programas de estágio, o gasto do governo federal dos EUA com eles equivale a menos de 1 por cento do gasto do sistema alemão.

Ao longo do último século, o crescimento da população que frequentou universidades elevou o padrão de vida, melhorou a mobilidade e contribuiu para a força econômica do país. Agora é necessário um sistema educacional que ofereça aos americanos mais de um caminho para o sucesso.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e seus proprietários.

Repórteres da matéria original: Romesh Ratnesar em N York, rratnesar@bloomberg.net;Clive Crook em Washington, ccrook5@bloomberg.net

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