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No México, outsider da política é favorito para Presidência

Nacha Cattan

07/06/2018 12h29

(Bloomberg) -- Durante anos, Manlio Fabio Beltrones teve sua própria música de apresentação em um programa de rádio mexicano: o tema musical de "O Poderoso Chefão".

Escândalos de corrupção rodearam o poderoso político. Ele parecia inabalável. Beltrones nunca foi condenado por nada, mas, com ou sem razão, ele se tornou uma das caras do que muitos mexicanos viam como uma cultura de acordos feitos nos bastidores.

Agora, os eleitores estão dispostos a punir o establishment elegendo como presidente um outsider de mãos limpas. Seria possível supor que isso significaria problemas para Beltrones e seus muitos colegas. Mas sinais indicam o contrário: o Poderoso Chefão não vai desaparecer em um governo de Andrés Manuel López Obrador. Ele pode até mesmo prosperar.

Quando perguntam o que há de errado com o país, os mexicanos sempre colocam a corrupção no topo da lista. Todos os políticos prometem combatê-la. Os dois principais candidatos à eleição presidencial de 1º de julho não são exceção - mas suas estratégias são muito diferentes.

López Obrador enfatiza que, à exceção de alguns casos especiais ou em andamento, ele não terá como alvo membros do governo do atual presidente, Enrique Peña Nieto, e de seu partido, o PRI. Ele se concentrará na prevenção da corrupção no futuro.

Postura branda?

Críticos dizem que o líder esquerdista, conhecido como AMLO, adotou uma postura branda com a corrupção e está se aproximando do PRI. Mas o tom conciliatório está atraindo eleitores de partidos rivais. Sua liderança nas pesquisas continua crescendo.

"Ele está ampliando conscientemente seu público para receber membros do PRI que estão insatisfeitos", disse Andrew Selee, do Instituto de Políticas de Migração, em Washington. Isso poderia ajudar López Obrador, cuja vitória presidencial parece cada vez mais garantida, a conquistar também uma maioria no Congresso, disse Selee.

É fácil ver como Beltrones, ou alguém como ele, pode ser útil para um governo de AMLO. Um assessor descreve-o como um polvo, com tentáculos em todos os partidos. Como líder do PRI na Câmara dos Deputados, ele desempenhou um papel fundamental de conciliação para aprovar as reformas de energia e educação de Peña Nieto. Seu assistente pessoal no Congresso, Canek Vázquez, se juntou ao bloco Morena, de López Obrador, que pode precisar de aliados para conseguir a aprovação de uma agenda econômica ambiciosa.

Em um segundo lugar distante nas pesquisas está uma coalizão de direita-esquerda liderada por Ricardo Anaya, que adotou uma postura muito mais agressiva. Ele prometeu investigar Peña Nieto por corrupção, lutar pela autonomia absoluta de promotores e fortalecer as instituições anticorrupção.

O porta-voz da campanha de Anaya, Fernando Rodríguez Doval, disse à Bloomberg que Peña Nieto está "negociando a impunidade" com López Obrador. O presidente do PRI, René Juárez, disse que essa conversa é "lenda urbana" e AMLO disse que é um sinal de desespero.

Veemente, mas vago

No entanto, apesar de seu discurso duro, os laços de Anaya com os governos anteriores minaram a promessa de uma ruptura com o passado, e confrontos diretos com o PRI o deixaram isolado. O mais recente monitor de pesquisas da Bloomberg mostra que Anaya está 26 pontos percentuais atrás de López Obrador - e apenas ligeiramente à frente do candidato do PRI, José Antonio Meade. (Meade, que nem sequer é membro do partido, foi indicado como a melhor chance do PRI para se desvincular de seu próprio mandato manchado por escândalos no poder. O plano não funcionou.)

Quando se trata de corrupção, López Obrador é veemente, mas vago. Ele promete centralizar todas as aquisições do governo federal e, de modo geral, liderar dando o exemplo.

Isso leva alguns mexicanos a se perguntarem por que os assessores de AMLO estão defendendo adeptos do partido governante, como o Poderoso Chefão, embora eles estejam envolvidos em escândalos.

Ricardo Monreal, um dos coordenadores de campanha de López Obrador, elogiou Beltrones como um político honrado. Mais recentemente, Yeidckol Polevnsky, líder do movimento Morena, de López Obrador, defendeu um representante que está sendo julgado por supostamente ter desviado dinheiro do governo para o PRI. Circulam rumores de um pacto entre os partidos. Polevnsky rapidamente se desculpou e disse que ela foi mal interpretada.

'Certo esquecimento'

Há sinais de "uma espécie de coordenação estratégica" entre o partido governante e seu provável sucessor, disse o cientista político Carlos Bravo. "Talvez seja difícil de engolir" para alguns mexicanos, disse ele, mas "não é algo inédito. Projetos de mudança de regime às vezes exigem certo esquecimento ou perdão dos pecados do passado".

Essa clemência parece incluir pessoas como Beltrones, que serviu nas duas casas do parlamento, governou o estado de Sonora e liderou o PRI. Ele sobreviveu a uma exposição do New York Times na década de 1990 que o vinculou a supostos traficantes de drogas. Beltrones e, posteriormente, o governo mexicano negaram que ele estivesse envolvido em qualquer delito.

Alguns dos outros membros proeminentes do PRI apontados como interlocutores-chave para um novo governo são Juárez, o senador Emilio Gamboa e o ex-ministro do Interior, Miguel Ángel Osorio.

'Voto da raiva'

López Obrador precisará do apoio de todos os partidos que conseguir para levar a cabo seus planos econômicos, de acordo com Aldo Muñoz, analista político da Universidade Autônoma do Estado do México. Redistribuir a riqueza é a prioridade do candidato, a julgar por seu "Plano para a Nação", de 400 páginas, repleto de novos programas sociais.

Esta provavelmente é uma das razões pelas quais, mesmo quando ele critica as grandes empresas por causa de abusos, o provável próximo presidente pede aos mexicanos que respeitem a transição da saída de Peña Nieto do poder.

"Com este discurso, ele pode conquistar alguns dos indecisos", disse Muñoz. "Ele já tem o voto da raiva."

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