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Ambulâncias aéreas geram contas estratosféricas nos EUA

John Tozzi

11/06/2018 13h46

(Bloomberg) -- Quando a febre de West Cox, de três anos de idade, passou de 41ºC, os médicos chamaram um helicóptero.

Horas antes, a criança, que tomava um antibiótico devido a uma suspeita de infecção no ouvido, estava em casa em Princeton, na Virgínia Ocidental, assistindo a desenhos animados e comendo batatas fritas. Então, durante um cochilo, começou a ter convulsões, e a mãe dele, Tabitha Cox, assistente de um médico, levou-o para o pronto-socorro só de short para baixar sua temperatura.

Tabitha lembra que a enfermeira da triagem arregalou os olhos quando tomou a temperatura de West no Princeton Community Hospital, o único centro médico na cidadezinha que fica no extremo sul do estado. Enfermeiras cobriam a criança com sacos de gelo para tentar baixar a temperatura.

Pacientes com uma febre tão alta podem sofrer danos cerebrais permanentes. Uma hora depois de sua chegada ao pronto-socorro, uma ambulância aérea estava a caminho para levar West ao hospital de mulheres e crianças CAMC, em Charleston. O voo reduziria pela metade uma viagem de 90 minutos.

Durante quatro noites na UTI pediátrica, West se recuperou de uma aparente encefalite. Três anos depois, seus pais continuam enfrentando as consequências do voo de pouco mais de 120 quilômetros: uma conta de US$ 45.930 da operadora de helicópteros Air Methods, que tem fins lucrativos.

No cerne da disputa está uma lacuna entre a quantia que o plano de saúde pagará pelo voo e a quantia que a Air Methods afirma precisar cobrar para continuar operando. Michael Cox, pai de West e treinador de atletismo na Universidade de Concord, tinha cobertura de saúde através de um plano para funcionários públicos. O plano pagou US$ 6.704 - quantia que, afirma a empresa, o Medicare teria pago pela viagem.

A Air Methods cobrou o restante à família.

A frota de ambulâncias aéreas dos EUA dobrou de tamanho nos últimos 15 anos, para cerca de 900 helicópteros que fazem 300.000 voos por ano, segundo dados compilados por Ira Blumen, professor de medicina de emergência e diretor da Rede Aeromédica da Universidade de Chicago.

Por causa desse rápido crescimento, histórias como a da família Cox se tornaram mais comuns. O setor de ambulâncias aéreas afirma que os reembolsos dos programas de saúde do governo dos EUA, incluindo Medicare e Medicaid, não cobrem suas despesas. Portanto, as operadoras alegam que precisam pedir que outras partes paguem mais - e quando os planos de saúde se recusam, os pacientes ficam com a conta.

"Eu estava com raiva e senti que estavam se aproveitando da gente", disse Tabitha Cox. A família processou a Air Methods em agosto de 2017, buscando a certificação para iniciar uma ação coletiva contra a empresa em nome de outros pacientes na Virgínia Ocidental que receberam contas semelhantes.

A Air Methods defendeu seu faturamento e contestou outras alegações na denúncia nos arquivos judiciais. O caso está pendente.

"O problema fundamental é que as atuais taxas de reembolso do Medicare, Medicaid e algumas das seguradoras privadas ficam aquém do que realmente custa para fornecer esse serviço que pode salvar vidas", disse JaeLynn Williams, vice-presidente executiva da Air Methods, em entrevista. Ela preferiu não comentar casos de pacientes específicos.

O tratamento favorável sob a lei federal significa que as companhias de ambulância aérea, ao contrário de suas contrapartes em solo, têm poucas restrições sobre quanto podem cobrar por seus serviços. Por causa de uma peculiaridade da Lei de Desregulamentação de Companhias Aéreas, de 1978, as operadoras de ambulância aérea são consideradas empresas aéreas -semelhantes à Delta Air Lines ou à American Airlines - e os estados não têm poder para impor restrições próprias.

O preço dos voos médicos de emergência aumentou drasticamente à medida que as operadoras de ambulâncias aéreas expandiram suas redes e passaram a responder a um conjunto mais amplo de emergências, incluindo traumatismos, derrames e ataques cardíacos.

A mediana da cobrança para o Medicare por um voo de helicóptero médico mais do que dobrou, de US$ 14.000 em 2010 para quase US$ 30.000 em 2014, de acordo com um relatório do ano passado do Escritório de Contabilidade do Governo dos EUA (GAO, na sigla em inglês). A mediana da cobrança da Air Methods disparou, de US$ 13.000 em 2007 para US$ 49.800 em 2016, segundo o GAO. Medicare, o programa federal de saúde para pessoas com 65 anos ou mais, paga apenas uma fração dos encargos faturados; Medicaid, o programa estadual-federal para os pobres, paga ainda menos.

O status legal especial das operadoras de ambulância aérea ajudou-as a frustrar esforços para controlar suas tarifas. O Poder Legislativo da Virgínia Ocidental aprovou em 2016 uma lei que limita o valor que seu plano de saúde para funcionários - que cobria West Cox - e seu programa de compensação de trabalhadores pagaria por ambulâncias aéreas. Outra empresa, a Air Evac EMS, conseguiu objetar os limites no tribunal federal. Um juiz determinou que a lei federal de desregulamentação tem precedência sobre os limites e impediu o estado de aplicá-los. A Virgínia Ocidental apelou da decisão.

Atraídos pelo rápido crescimento do setor, investidores ricos adquiriram muitas das maiores operadoras de ambulância aérea, e o controle dos negócios ficou nas mãos de grupos de private equity. A American Securities comprou a Air Methods por US$ 2,5 bilhões em março de 2017. A concorrente Air Medical Group Holdings, que inclui a Air Evac e várias outras marcas, pertence à firma de private equity KKR & Co., de Nova York, desde 2015. Dois terços dos helicópteros médicos em operação em 2015 pertenciam a três prestadores de serviços com fins lucrativos, afirmou o GAO em seu relatório.

Amy Harsch, diretora administrativa da American Securities, não quis comentar. Kristi Huller, porta-voz da KKR, preferiu não comentar.

Seth Myers, presidente da Air Evac, disse que sua empresa perde dinheiro com pacientes cobertos por Medicaid e Medicare, e também com pacientes sem plano de saúde. Eles equivalem a cerca de 75 por cento das pessoas transportadas pela companhia.

"Eu transporto as pessoas com base na necessidade, quando um médico ou uma ambulância solicita", disse ele. "Só sabemos se uma pessoa tem capacidade de pagar após dias."

Na Virgínia Ocidental, a família Cox passou por dois apelos com o plano de saúde. Depois que a família contratou um advogado, a Air Methods ofereceu reduzir seu saldo para US$ 10.000 após analisar declarações fiscais, extratos bancários, recibos de pagamento e uma lista de ativos. A família optou por processar.

"Senti que eles nos analisaram para ver quanto dinheiro poderiam tirar da gente", disse Tabitha Cox. "Penso nas pessoas que realmente estão em dificuldades - mães solteiras, pessoas que não têm as condições financeiras que temos. Em resumo, não é justo."

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