PUBLICIDADE
IPCA
0,86 Out.2020
Topo

Goldman e Morgan Stanley lideram ofertas de ações no Brasil

Felipe Marques e Vinícius Andrade

23/07/2018 07h00

(Bloomberg) -- Os US$ 3,7 bi em ações vendidos pela PagSeguro neste ano colocaram o Morgan Stanley e o Goldman Sachs nos dois primeiros lugares no ranking de coordenadores de ofertas de ações de empresas do Brasil no primeiro semestre, uma das raras ocasiões em que bancos americanos desbancam os locais nesse mercado.

"Este é um ano interessante, porque apesar de não haver muitas transações, elas são emblemáticas", disse Antonio Pereira, chefe do banco de investimento no Brasil do Goldman Sachs, em entrevista em São Paulo. "A discussão agora tem mais a ver com a qualidade da empresa oferecida aos investidores do que com o risco macro do Brasil."

Os dois gigantes de Wall Street tem a PagSeguro Digital a agradecer pela vitória, depois que a empresa de pagamentos os escolheu para ajudar a vender US$ 2,6 bi em ações em janeiro, a maior oferta inicial da Bolsa de Nova York desde março de 2017. As ações subiram após sua estreia e a PagSeguro aproveitou a chance de vender mais US$ 1,1 bi em ações em junho. O Goldman Sachs e o Morgan Stanley foram os principais subscritores em ambas as transações.

Do IPO da PagSeguro até agora, o cenário se complicou para quem quer vender ações na bolsa. Os preços dos ativos no Brasil têm estado sob pressão após a greve dos caminhoneiros que paralisou o país por 11 dias em maio e trouxe à tona a preocupação com a eleição presidencial de outubro, onde candidatos favoráveis ??ao mercado vêm perdendo terreno. Atualmente liderando as pesquisas está Jair Bolsonaro, tido como imprevisível, seguido por Ciro Gomes, que abraçou algumas visões econômicas pouco ortodoxas.

A eleição "é certamente um fator relevante e se tornou ainda mais importante ao longo do mês passado", uma vez que cria volatilidade, disse Alessandro Zema, chefe de banco de investimento no Brasil do Morgan Stanley, em entrevista.

A incerteza econômica e política abalou os planos de algumas empresas brasileiras de se tornarem públicas. Das 13 que manifestaram intenção de emitir ações pela primeira vez na bolsa de valores brasileira neste ano, apenas três conseguiram até agora: as operadoras de planos de saúde Hapvida Participações e Investimentos e Notre Dame Intermedica Participações e o banco digital Banco Inter. Outras empresas, incluindo a varejista de brinquedos Ri Happy Brinquedos, do fundo Carlyle, e o credor digital Banco Agibank, desistiram.

"Acho justo dizer que o nível de atividade para IPOs e ofertas secundárias diminuirá significativamente até as eleições", disse Zema. "Se começarmos a ter um fluxo de notícias positivas, poderemos ver as ações tendo um rali e os negócios começando a ganhar força."

O volume creditado ao Morgan Stanley foi de R$ 4,6 bi até 20 de julho, seguido pelos R$ 4,3 bi do Goldman Sachs segundo dados compilados pela Bloomberg. As empresas brasileiras emitiram um total de R$ 24,4 bi em ações, um aumento de 1% em relação ao mesmo período de 2017. Ainda assim, o número de transações caiu de 21 para 16.

O líder do ano passado foi o Banco Itaú BBA, que também ocupou esse lugar em 2016. Um banco local está no topo desde 2010.

Block Trades

O Ibovespa, que caiu para o nível mais baixo do ano após a greve dos caminhoneiros, agora sobe 3% no ano. A recuperação alimentou as esperanças dos banqueiros de que pelo menos um tipo de negócio de ações possa romper a calmaria do ano eleitoral: block trades.

Essas transações "têm uma execução rápida e podem gerar bons ganhos dependendo das condições do mercado", disse Fabio Nazari, diretor de mercado de capitais e sócio do Banco BTG Pactual, que trabalhou no maior número de ofertas de ações neste ano na América Latina. As vendas em bloco são mais prováveis ??quando as empresas estão negociando perto dos maiores níveis históricos, e a recente recuperação do mercado aumentou as chances de que alguns vendedores decidam acessar o mercado antes do fim do ano, disse Nazari.

'Avalanche' de transações

Entre os block trades deste ano estavam a venda de R$ 1,41 bi da Mitsubishi UFJ Financial Group de cerca de metade da participação no Bradesco, a venda da participação da Shell de R$ 709 mi na Cosan e a venda de cerca de R$ 530 mi do estado do Rio Grande do Sul em ações do Banrisul.

"Se o resultado eleitoral for positivo, acho que será uma avalanche de acordos", disse Nazari. "Vamos ver uma bonança de três anos".

O Goldman Sachs já está de olho em transações pós-eleitorais, disse Pereira, já que o banco pretende ser uma presença mais regular nos rankings de ações da região.

"O Brasil está agora em uma trajetória de crescimento, então redimensionamos nossa equipe para preencher as lacunas de cobertura que tínhamos", disse Pereira, acrescentando que o banco tem agora cerca de 40 pessoas em sua unidade de investment banking, ante 30 alocados na área até recentemente. Entre os novos contratados estão Ricardo Bellissi, ex-chefe de fusões e aquisições do Santander Brasil e João Lobo, ex-diretor de banco de investimentos do Citigroup, disseram neste mês pessoas familiarizadas com o assunto.

"Não vamos ser a equipe que chuta uma ou duas bolas do meio-campo e, com sorte, elas acabem acertando o gol", disse Pereira. "Nosso time está cheio de energia e bem posicionado para fazer novas jogadas."