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Mês infernal em Wall Street: sem comer, sem dormir, sem família

Annie Massa e Ivan Levingston

04/09/2018 14h01

(Bloomberg) -- Faz mais de 25 anos que Mike Mayo, analista de Wall Street, dança no compasso sem trégua das corporações americanas.

Seus hábitos de trabalho, seus eventos familiares, sua vida social, até mesmo a academia e as férias -- tudo isso tem sido ditado pelo ciclo aparentemente imutável dos relatórios trimestrais de resultados.

Quatro vezes por ano, ele tem que deixar tudo de lado. As crianças? Procure uma babá. A academia? Tente às 4h30. Durante a movimentação desses 30 dias corre tanta adrenalina que às vezes Mayo até esquece de comer. Ele pula, grita e não desgruda dos telefones. Ele comemorou sua 100ª temporada de balanços, neste ano, com uma xícara de chocolate quente para recuperar o fôlego.

"O tênis tem quatro torneios de Grand Slam", diz Mayo, analista do Wells Fargo. "Wall Street tem suas quatro temporadas de balanços trimestrais."

Mas e se, no caso das finanças americanas, a Terra mudasse abruptamente -- se de repente as quatro temporadas fossem reduzidas a duas? Pode parecer loucura. Mas agora a ideia foi levantada nada menos que pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Em um tuíte de 17 de agosto, ele sugeriu que a Comissão de Valores Mobiliários (SEC, na sigla em inglês) avaliasse essa possibilidade.

Uma mudança dessas alteraria drasticamente a vida de Wall Street. Assim como Mayo, milhares de analistas, auditores, gerentes financeiros, profissionais de relações com investidores e profissionais de relações públicas construíram suas carreiras e suas vidas em torno dos quatro trimestres. As declarações de resultados precisam ser preparadas. As teleconferências precisam ser marcadas. Os relatórios dos analistas precisam ser escritos. As recomendações para ações precisam ser atualizadas.

Ritual

O que é ainda mais importante, advertem os críticos, é que mudar o ritmo do mundo empresarial americano para um calendário semestral pode diminuir a transparência para o público investidor. Atualmente, as empresas americanas têm que mostrar seus dados a cada três meses. Em um ritual que governa Wall Street e é tão previsível como a passagem do verão para o outono, mais de 3.000 empresas de capital aberto publicam resmas de atualizações financeiras cruciais. É como um exame médico que revela a saúde de uma empresa (ou a extensão de sua doença) e proclama sua visão do futuro.

As empresas rezam para que o dia dos resultados seja chato. Sem surpresas, sem contratempos, sem CEOs repreendendo analistas. Detalhes enervantes precisam ser conferidos para evitar confusão no dia decisivo. Os números têm que ser precisos. Os executivos têm que estar prontos para as perguntas mais incisivas.

Os simpatizantes da ideia de Trump dizem que adotar o regime semestral liberaria os CEO dos EUA para se concentrarem mais no panorama geral e daria flexibilidade às pequenas empresas. Além disso, os gastos em pesquisa de Wall Street estão sendo examinados desde que as regulamentações financeiras da Europa entraram em vigor em janeiro, desmembrando seus custos de outros serviços. Os investidores também estão reexaminando o consumo de pesquisa, particularmente à medida que os algoritmos assumem cada vez mais as negociações.

No entanto, não faltam críticos. Um estudo do CFA Institute, do Reino Unido, concluiu que a mudança para resultados semestrais não eliminou o pensamento de curto prazo. Afirmou também que a maioria das empresas continua informando trimestralmente, mesmo quando não é necessário.

"Um mercado eficiente opera com os fundamentos e se tivermos menos dados fundamentais, isso seria complicado", disse Liz Young, estrategista sênior de investimentos da BNY Mellon Investment Management.

--Com a colaboração de Sarah Ponczek.

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