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Campo de golfe entra na disputa dos credores na Argentina

Pablo Gonzalez e Carolina Millan

06/09/2018 15h14

(Bloomberg) -- O impecável Cañuelas Golf Club ocupa 72 hectares na região dos Pampas, perto de Buenos Aires. Inaugurado em 2014, o clube é anfitrião do Latin American PGA Tour e é a menina dos olhos do proprietário Aldo Navilli.

Também estão de olho no empreendimento credores como ING, Rabobank e o braço de Finanças Internacionais do Banco Mundial. Eles querem que Navilli venda o clube para honrar uma dívida de US$ 1,1 bilhão que seu conglomerado de alimentos, o Molino Cañuelas SACIFIA, deixou de pagar em meio à crise na Argentina, que derrubou o peso, elevou os juros e atropelou a economia.

Navilli recusou a proposta e ameaça pedir recuperação judicial, o que forçaria os bancos a baixar drasticamente o valor contábil da dívida se não concordarem com uma redução mais razoável, segundo pessoas a par das conversas. "Vocês têm um problema, não eu", teria dito Navilli a dois executivos de bancos durante uma reunião tensa.

Em todo o setor privado argentino, aparecem mais e mais vítimas da crise que se arrasta há quatro meses. Para muitos, a dificuldade é a mesma enfrentada pela Molino Cañuelas: dívidas em dólares e receitas geradas em pesos tão desvalorizados.

Esse descasamento também freou os planos de expansão da Telecom Argentina. Investidores estrangeiros não mostraram interesse em comprar os títulos que a operadora tentava vender para financiar a expansão. Diversas grandes colocações, incluindo uma operação de US$ 1 bilhão planejada pela petrolífera YPF, foram engavetadas nas últimas semanas.

"A economia argentina está paralisada", declarou o ex-presidente do banco central Martín Redrado. Com o peso em queda livre e os mercados retraídos, é difícil atribuir preços aos ativos, ele explicou. "É muito difícil negociar quando nenhum dos dois lados tem informação sobre preços. Não há como chegar a um acordo."

Campanha pelo livre mercado

Não era esta Argentina que o presidente Mauricio Macri tinha em mente. Após quase três anos de governo focado no livre mercado, uma grande seca e persistentes problemas fiscais e de inflação intensificaram a queda de mais de 50 por cento do peso. O rendimento da dívida externa é 7,37 pontos percentuais maior do que o dos títulos do Tesouro americano, o maior spread desde que Macri assumiu o cargo. O Merval, referência do mercado acionário, desabou para o menor nível desde 2013.

Sem conseguir conter a crise, assessores de Macri viajaram a Washington para negociar um adiantamento da linha de emergência de US$ 50 bilhões recebida do Fundo Monetário Internacional em junho.

Navilli se recusou a comentar sobre as conversas com credores. Uma porta-voz disse que um porto de propriedade dele no Rio Paraná, avaliado em US$ 70 milhões, pode ser dado como garantia. A companhia também pode vender terras e espaços de armazenagem recebidos da Cargill em um acordo realizado em 2014. A representante acrescentou que Navilli fará tudo o que puder para manter o campo de golfe. A Lazard, que cuida da reestruturação da companhia, se recusou a comentar.

Transações voltarão a ser feitas quando os investidores ficarem mais realistas em relação ao risco Argentina, disse Redrado. O risco percebido de calote pelo governo argentino é maior do que o implícito na dívida pública da Turquia e da Grécia, de acordo com dados da CMA.

Repórteres da matéria original: Pablo Gonzalez em Buenos Aires, pgonzalez49@bloomberg.net;Carolina Millan em Buenos Aires, cmillanronch@bloomberg.net

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