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Briga por Airbus e Boeing revela que guerra comercial será longa

Enda Curran, Shawn Donnan e Bryce Baschuk

03/10/2018 14h42

(Bloomberg) -- Durante quase duas décadas, os EUA e a UE brigaram na Organização Mundial do Comércio por causa das fabricantes de aviões Boeing e Airbus.

Ataques e contra-ataques alegavam a existência de subsídios públicos ilegais. Decisões do árbitro do comércio global eram seguidas por mais queixas e ameaças de aplicação de impostos. Mesmo assim, as brigas continuam sem sinais de acabar.

Agora que os EUA e a China estão em uma onda de tarifas, a incapacidade dos EUA e da UE de resolver sua disputa oferece uma lição fundamental para a crescente guerra comercial: ela vai ser longa e árdua.

O presidente dos EUA, Donald Trump, tem falado principalmente sobre o desequilíbrio comercial, mas o conflito com a China é mais profundo. Para os EUA, trata-se de uma batalha pelos setores de tecnologia do século 21 - e pela estratégia explícita do presidente Xi Jinping para transformar a China em líder global em áreas como inteligência artificial, robótica e veículos movidos a novas fontes de energia.

Trata-se de um desafio direto aos EUA, que acusam Pequim de usar métodos como forçar a transferência de tecnologia e oferecer apoio ilegal do governo para cumprir suas metas. O problema, na hora de buscar uma resolução, é que a estratégia Made in China 2025 de Xi é fundamental para as ambições da China. Uma coisa é convencer um país a comprar mais soja ou importar mais carros. Conseguir negociar que ele abra mão de seu futuro econômico em prol de um rival estratégico é algo muito diferente.

"O sucesso da Airbus era considerado fundamental para a estratégia industrial europeia, e a UE não iria simplesmente ser convencida do contrário", disse Edward Alden, membro sênior do Conselho de Relações Exteriores e especialista em competitividade econômica, comércio e política imigratória dos EUA. "A China está na mesma situação."

Pequim rebate as acusações dos EUA e advertiu que não vai negociar com "uma faca no pescoço". Wang Shouwen, o vice-ministro do Comércio, disse recentemente que Pequim não impõe transferências de tecnologia, mas se reserva o direito de exigir que empresas estrangeiras que operem em determinados setores entrem em joint ventures com empresas locais, conforme permitido pelas normas da OMC.

Briga na OMC

A briga de 14 anos entre os EUA e UE é uma das mais prolongadas e mais caras nos 23 anos de história da OMC. Os EUA atacaram primeiro em 2004, e a OMC acabou concluindo que a UE deu à Airbus subsídios que infringiam as normas da OMC. Ao mesmo tempo, a UE entrou com uma ação própria, que resultou na decisão de que programas federais e estaduais de incentivos fiscais nos EUA beneficiavam injustamente a Boeing.

Estima-se que o conflito entre os EUA e a China será muito mais complicada que a briga entre os EUA e a UE, por causa do sistema administrativo, do modelo de desenvolvimento dirigido pelo Estado e da falta de transparência da China, disse Stephen Olson, pesquisador da Hinrich Foundation e ex-negociador comercial dos EUA.

"A criação de regras comerciais claras e executáveis sobre o que está permitido e o que não está é algo complicadíssimo, como evidenciado pela velha disputa entre os EUA e a UE pela Airbus e pela Boeing", disse Olson. "Os problemas apresentados pelo projeto Made in China 2025 são de uma ordem de magnitude mais complexa."

Repórteres da matéria original: Enda Curran em Hong Kong, ecurran8@bloomberg.net;Shawn Donnan em Washington, sdonnan@bloomberg.net;Bryce Baschuk em Genebra, bbaschuk2@bloomberg.net

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