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Investidor vê Argentina em beco sem saída com eleição em 2019

Ben Bartenstein e Patrick Gillespie

05/10/2018 14h24

(Bloomberg) -- É o paradoxo argentino. Quanto mais o presidente Mauricio Macri se esforça para tranquilizar investidores, aumenta a chance de ele perder o poder e mais os investidores ficam nervosos em relação à perspectiva de longo prazo para o país.

Após negociar o maior empréstimo da história do Fundo Monetário Internacional, o governo argentino prometeu reduzir gastos e subir impostos, enquanto o banco central implementou a maior taxa de juros do mundo. Ainda assim, gestoras de recursos como AllianceBernstein e BlackRock não se convencem que Macri conseguirá se manter na presidência por tempo suficiente para salvar a economia.

"A determinação do governo argentino a fazer o que é certo não está em dúvida, e sim sua capacidade de fazer isso por tempo suficiente", disse Isabelle Mateos y Lago, estrategista-chefe multimercados do Instituto de Investimento BlackRock, o centro de estudos da gestora, com sede em Nova York. "Isso impediu um avanço mais confiante dos mercados até agora."

Com a eleição marcada para daqui a um ano, a taxa de aprovação de Macri caiu para 31 por cento no início de setembro. A nação enfrenta a segunda recessão em três anos e a maior desvalorização cambial do mundo em 2018. Mas cada medida ortodoxa tomada para sanar a economia e conter a depreciação do peso pode causar sofrimentos que seriam usados contra Macri na eleição do ano que vem.

Mesmo a ajuda do FMI é motivo de revolta para argentinos que culpam o fundo pelo colapso econômico de 2001, lembrou a economista Priscila Robledo, da consultoria Continuum Economics, de Nova York. Ela prevê mais perdas para os ativos argentinos no segundo semestre de 2019 com a derrota de Macri.

Um indicador de confiança no governo recuou para a menor pontuação desde que Macri assumiu o cargo, em dezembro de 2015.

O temor dos investidores é que, embora a oposição ? particularmente a ex-presidente Cristina Fernandez de Kirchner ? esteja às voltas com acusações de corrupção, o fracasso de Macri no sentido de promover o crescimento da economia pode deixar os eleitores ainda mais revoltados.

Economia vs. corrupção

"As pessoas sempre vão votar com a carteira", disse James Gulbrandsen, gestor de recursos que trabalha no Rio de Janeiro e ajuda a supervisionar US$ 3,5 bilhões na NCH Capital. A firma eliminou totalmente a exposição à Argentina neste ano. "A economia geralmente se sobrepõe à revolta com a corrupção."

Entre os prováveis rivais de Macri na eleição estão Juan Manuel Urtubey (governador peronista e centrista da província de Salta), Sergio Massa (que foi chefe de gabinete de Cristina) e talvez a própria Cristina (cenário mais preocupante para os investidores).

"Os investidores estrangeiros provavelmente vão jogar a toalha e desistir se o país voltar ao peronismo", disse Gulbrandsen.

Entre os peronistas, Urtubey seria o mais aceitável pelos investidores. Ele compareceu à entrevista coletiva na qual o ministro da Economia, Nicolas Dujovne, anunciou cortes de gastos e prometeu reduzir despesas em sua província, oferecendo apoio implícito.

Mas com a economia encolhendo, tentar a reeleição já seria uma conquista para Macri. Excluindo a época da ditadura, nenhum não peronista terminou um mandato nas últimas sete décadas.

"É o fator de risco mais importante na Argentina no momento", disse Shamaila Khan, diretora de dívidas de mercados emergentes da AllianceBernstein, em Nova York. "Se Macri não vencer e seu partido perder, haverá impacto muito negativo sobre os ativos argentinos."

Repórteres da matéria original: Ben Bartenstein em Lima, bbartenstei3@bloomberg.net;Patrick Gillespie em Buenos Aires, pgillespie29@bloomberg.net

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