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Por energia barata, porto ignora risco de desastre climático

James Thornhill e Jason Scott

06/11/2018 14h39

(Bloomberg) -- Poucos lugares ilustram melhor a tensão entre a busca de lucro e o combate às mudanças climáticas do que o porto australiano de Abbot Point, no norte de Queensland.

A 50 quilômetros da Grande Barreira de Corais, a Adani Enterprises quer ampliar sua capacidade para exportar mais carvão de uma mina próxima avaliada em 2 bilhões de dólares australianos (US$ 1,4 bilhão). A expansão enfrenta oposição de ambientalistas, que afirmam que a operação colocará em risco a saúde do recife, uma das sete maravilhas do mundo natural, mas foi apoiada pelo governo juntamente com a nova mina.

Trata-se de um exemplo emblemático do dilema da Austrália, um país agraciado com alguns dos ambientes naturais mais ricos do mundo, como os pântanos de Kakadu, no Território do Norte, e a primitiva floresta tropical de Tarkine, na Tasmânia, mas dependente da mineração e da exportação de um dos combustíveis fósseis mais nocivos ao meio ambiente para manter o avanço da economia.

Com o primeiro-ministro Scott Morrison e seu governo de coalizão formado pelos partidos Liberal e Nacional, por enquanto os argumentos políticos e econômicos a favor dos combustíveis fósseis estão esmagando o interesse popular de lutar contra a mudança climática. A coalizão estava disposta a desembolsar 1 bilhão de dólares australianos em empréstimos financiados pelos contribuintes para ajudar a Adani a construir uma ligação ferroviária para o projeto, mas o plano foi vetado pelo governo estadual de Queensland, que é controlado pelo Partido Trabalhista, de oposição na esfera nacional.

Apesar de o país ser uma das maiores fontes de carvão e gás natural do mundo, uma década de indecisão e erros políticos sobrecarregaram a Austrália com preços de energia cada vez elevados e, em certos momentos, ofertas pouco confiáveis. Os sucessivos governos não ofereceram a certeza de investimento necessária para construir pontes de transição para energias renováveis como a solar e a eólica em meio ao fechamento de antigas usinas movidas a carvão.

O governo no momento está basicamente focado em acalmar os eleitores afetados pelas contas de eletricidade mais altas e vê o carvão como solução. No entanto, esses mesmos eleitores também querem mais ações contra as mudanças climáticas, sendo que 84 por cento querem que o governo amplie a geração de energia renovável, segundo pesquisa realizada em junho pelo think tank australiano Lowy Institute.

"O desafio é, em grande parte, político", disse Mark Howden, diretor do Instituto de Mudanças Climáticas da Universidade Nacional da Austrália. "Temos uma série de barreiras, tanto em termos de políticas quanto de falta de políticas, para incentivar a mudança."

Muitos parlamentares australianos ainda consideram o argumento econômico de apoio ao carvão mais atraente do que o de evitar um possível Armagedom ambiental. O combustível está superando o minério de ferro como maior fonte de ganhos com exportações da Austrália neste ano fiscal e os mais de US$ 40 bilhões em impostos por ano obtidos com vendas ao exterior ajudam a reforçar os cofres do governo. A Austrália gera cerca de 80 por cento de sua energia a partir do carvão e do gás, contra uma média global de cerca de 59 por cento, segundo dados da Bloomberg NEF.

Repórteres da matéria original: James Thornhill em Sidnei, jthornhill3@bloomberg.net;Jason Scott em Canberra, jscott14@bloomberg.net

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