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BCE enterra agenda pró-diversidade ao nomear homem de meia-idade

Paul Gordon

08/11/2018 15h19

(Bloomberg) -- Quando chegou o grande momento, os membros do Banco Central Europeu guardaram o programa pró-diversidade no fundo da gaveta.

Tendo que escolher, em votação secreta realizada na quarta-feira, entre dois candidatos experientes -- um homem e uma mulher -- para o cargo de supervisor bancário, o Conselho Governativo do BCE escolheu Andrea Enria, um homem branco de 57 anos.

A presidência do Mecanismo Único de Supervisão (MUS) era um teste particularmente importante por se tratar da nomeação de mais alto escalão que o BCE pode influenciar. Outros cargos de chefia são repartidos pelos governos da zona do euro, e Benoit Coeuré, membro do Conselho Executivo, pediu neste ano que os líderes adotassem "ações mais resolutas" para nomear mulheres.

Embora o italiano Enria esteja bastante qualificado após mais de sete anos à frente da Autoridade Bancária Europeia, sua nomeação representa uma impressionante reversão, já que Sharon Donnery, vice-presidente do banco central da Irlanda, foi vista como favorita durante semanas. A decisão também mina a promessa do BCE de ampliar o número de mulheres na diretoria.

"O BCE está se torando cada vez mais um velho clube do Bolinha", disse Klaus Fleischer, professor de finanças da Universidade de Ciências Aplicadas de Munique. "Isso não parece bom. Os bancos que o BCE supervisiona e os outros bancos centrais estão conseguindo ampliar o número de mulheres qualificadas em cargos de liderança, enquanto o BCE parece estar atolado em intrigas políticas em meio à divisão norte-sul da Europa."

Agora a liderança do MUS passará de duas mulheres a dois homens. Enria substituirá a francesa Danièle Nouy em 1º de janeiro, e o mandato não renovável da vice-presidente Sabine Lautenschlaeger terminará em meados de fevereiro. O substituto de Lautenschlaeger será selecionado do Conselho Executivo do BCE, do qual ela participa e todos os seus cinco colegas são homens. Além disso, ela é uma das únicas duas mulheres do Conselho Governativo, que define políticas e é formado por 25 membros.

Pressão do Parlamento

O Parlamento Europeu precisa aprovar a nomeação para o comando do MUS e tem se queixado com frequência da disparidade de gênero. O Parlamento adiou a nomeação de Yves Mersch para o Conselho Executivo em 2012, em um protesto simbólico, e reclamou neste ano quando os únicos candidatos para a vice-presidência eram dois homens.

No entanto, foi a Comissão dos Assuntos Econômicos e Monetários do Parlamento que abriu caminho para Enria. Após audiências informais com os candidatos pré-selecionados pelo BCE, no mês passado, a comissão concluiu que ele e Donnery eram aceitáveis. Um terceiro candidato, o francês Robert Ophèle, foi rejeitado.

O presidente da comissão, Roberto Gualtieri, também italiano, escreveu ao presidente do BCE, Mario Draghi, dizendo que Donnery se destacava pelo gênero e que Enria era reconhecido por sua experiência, segundo uma carta confidencial obtida pela Bloomberg. Draghi, coincidentemente, discursa no Parlamento irlandês nesta quinta-feira.

O BCE impôs metas de gênero em 2013 com o objetivo de que 35 por cento dos cargos de gestão fossem ocupados por mulheres até 2019. Até o fim do ano passado, a fatia era de 27 por cento, abaixo até mesmo da meta provisória do banco.

--Com a colaboração de Nicholas Comfort.

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