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Em terra de retorno de 70% sem risco, bancos não emprestam mais

Carolina Millan e Ignacio Olivera Doll

08/11/2018 15h24

(Bloomberg) -- O banco central da Argentina tornou-se uma espécie de mutuário em última instância. É o único lugar onde os bancos podem deixar seu dinheiro parado com segurança e lucratividade, em um momento em que o crédito é drenado de uma economia em queda.

O mais recente plano de salvação do presidente Mauricio Macri, sustentado por um resgate recorde de US$ 56 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI), envolveu elevar ainda mais as taxas de juros mais altas do mundo - que agora estão perto de 70 por cento. O objetivo é tirar o dinheiro de circulação, conter a inflação e amparar uma moeda que perdeu metade de seu valor neste ano.

Os responsáveis pela política econômica querem que os argentinos tenham pesos, em vez de dólares, e querem que esses pesos fiquem depositados nos bancos. Isso está começando a acontecer. A moeda se estabilizou no primeiro mês do plano do FMI, e os depósitos a prazo aumentaram.

Mas depois de duas décadas de volatilidade, reconduzir os argentinos à moeda local não é barato. Os bancos estão tendo que pagar acima de 50 por cento nesses depósitos a prazo. Para obter lucro, eles precisam conceder empréstimos a taxas ainda mais altas - e é difícil encontrar mutuários solventes em uma recessão.

'Sem risco'

É aí que entra o banco central.

As exigências de reserva para os depósitos a prazo estão altas, em 25 por cento. Mas o presidente do banco central, Guido Sandleris, está permitindo que os bancos mantenham parte dessas reservas em notas de sete dias, conhecidas como Leliqs, em vez de dinheiro.

As Leliqs não contêm riscos - e atualmente pagam mais de 68 por cento. O banco central garantiu que o juro não ficará abaixo de 60 por cento até dezembro, no mínimo.

Isso dá aos bancos uma margem respeitável. Eles não vão registrar grandes retornos sobre o patrimônio, considerando a taxa de inflação de 40 por cento. Ainda assim, é um colchão contra outras pressões, como os custos mais altos de financiamento, a queda nas receitas de comissões e um provável aumento da inadimplência em empréstimos, disse Valeria Azconegui, analista da Moody's Investors Service.

Enquanto isso, empresas como a CC Agro y Tec, que importa produtos eletrônicos de consumo, estão sendo excluídas do sistema de crédito, segundo Diego Valguarnera, seu diretor financeiro.

"Os bancos têm que escolher entre colocar o dinheiro para trabalhar em um investimento praticamente sem nenhum risco, ou emprestá-lo para empresas em um momento em que o consumo está caindo", disse ele. "Eles escolhem a primeira opção."

E, embora os bancos possam esperar para ver se os planos vão dar certo, não se sabe por quanto tempo seus clientes da economia real conseguirão aguentar. Pablo Dragún, diretor de pesquisa da União Industrial Argentina, compreende que a política de juros altos é uma tentativa de reduzir a demanda por dólares.

"Mas isso provoca um efeito muito adverso nos setores produtivos", diz ele. "Precisamos que os juros caiam drasticamente, antes que a economia afunde."

--Com a colaboração de Ricardo Strulovici Wolfrid.

Repórteres da matéria original: Carolina Millan em Buenos Aires, cmillanronch@bloomberg.net;Ignacio Olivera Doll em Buenos Aires, ioliveradoll@bloomberg.net

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