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Ativos mexicanos desabam com proposta do novo governo

Eric Martin

09/11/2018 11h55

(Bloomberg) -- O presidente eleito do México, Andrés Manuel López Obrador, e seus aliados estão mostrando que colocarão os interesses da população acima dos interesses do setor privado - mesmo se os investidores se incomodarem.

Ações, títulos e a taxa de câmbio desabaram na quinta-feira após o líder do Partido Morena (ao qual Obrador, conhecido pelas iniciais AMLO, é filiado) no Senado apresentar uma proposta para eliminar determinadas tarifas cobradas pelos bancos. A medida pode ser bem-vinda por muitos, mas surpreendeu empresários, que já estavam processando a decisão do presidente eleito, anunciada há 11 dias, de cancelar o projeto de construção de um aeroporto por US$ 13 bilhões.

AMLO sempre causou nervosismo entre investidores por causa da agenda de esquerda, mas as últimas decisões dele e do partido fizeram a comunidade financeira temer o que está por vir. Após posar sorrindo ao lado de executivos nos quatro primeiros meses da transição presidencial, nas últimas duas semanas López Obrador enfrenta o setor privado como nenhum outro líder no passado recente.

A decisão sobre as tarifas bancárias "está em linha com o recado sobre o aeroporto: há um novo presidente no pedaço e ele vai garantir que mudanças aconteçam", disse o cientista político Carlos Bravo, do Centro de Pesquisa e Docência Econômica da Cidade do México. "López Obrador está tentando restaurar algum grau de autonomia política à presidência com relação aos poderes econômicos."

Não são apenas as decisões dele sobre economia e finanças que preocupam.

Ele foi amplamente criticado por convidar o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, para sua cerimônia de posse, em 1º de dezembro. Além da revolta expressada por usuários do Twitter, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) e o Partido de Ação Nacional (PAN), que governaram o país desde o início do século passado, exigiram que López Obrador retirasse o convite. Mas ele defendeu a presença de Maduro, argumentando que seu governo quer ser amigo de todas as nações.

Livro de Felipe González

Embora López Obrador tenha se pronunciado várias vezes desde a decisão sobre o aeroporto e tentado acalmar os ânimos, a postura dele repete críticas às elites empresariais. Em uma mensagem de vídeo, ele apareceu ao lado de uma pilha de livros. No topo estava um livro intitulado "Quem Manda Aqui?", que tem entre seus autores o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González, e analisa como governos não representam os interesses dos eleitores.

Ele foi mais explícito em uma entrevista coletiva sobre o cancelamento do aeroporto. "É uma amostra", ele disse. "Não permitimos pressão de ninguém. É evidente que de agora em diante existe uma divisão clara, uma fronteira entre o poder econômico e o poder político."

A proposta apresentada na quinta-feira pede a eliminação de tarifas cobradas em saques e consultas de saldo em caixas eletrônicos, na impressão de extratos e em transferências para outros bancos. O principal índice da bolsa mexicana caiu 5,8 por cento por cento, a maior queda diária desde 2011. A ação do Grupo Financiero Banorte, o maior banco de capital aberto do país, desabou12 por cento. O peso se desvalorizou 1,6 por cento.

Ricardo Monreal, líder do Morena no Senado, disse a jornalistas na noite de quinta-feira que não vai apressar a iniciativa nas comissões do Senado antes de ouvir opiniões diferentes sobre o assunto. A proposta pode ser alterada ou aprimorada, segundo ele, que ainda assim insistiu que as tarifas cobradas dos mexicanos são altas demais.

"Não queremos ser classificados como um grupo parlamentar contra a economia, contra grupos econômicos, contra investidores", disse ele.

--Com a colaboração de Justin Villamil e Juan Pablo Spinetto.

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