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EUA têm programa de recompensa só para traficantes de drogas

Olivia Carville

09/11/2018 14h25

(Bloomberg) -- Com malas Samsonite douradas cheias de notas de US$ 100, dois agentes secretos da Administração de Combate às Drogas dos EUA (DEA, na sigla em inglês) entraram no quarto de um hotel na Cidade do México.

Minutos depois, um traficante de drogas de baixo escalão bateu na porta. Os agentes ficaram observando enquanto ele tirava maços de US$ 10.000 das malas e colocava um por um em cima da cama. Todo aquele dinheiro, US$ 2 milhões ao todo, acabou se espalhando pelo colchão. Quando acabou, o homem assinou um recibo, juntou o dinheiro e foi embora.

Era 1994. A entrega, relatada pelo ex-agente da DEA Mike Vigil, poderia parecer um episódio da série Narcos. Mas no mundo dos informantes de drogas de alto valor, a história é uma ilustração sombria das longas e fracassadas tentativas dos EUA de conter o fluxo de narcóticos que entram em um país cheio de cidadãos ávidos por drogas.

Mas, ultimamente, o ritmo em que os traficantes têm traído seus chefes em troca de riquezas aumentou. Um dos motivos pode ser a ênfase colocada em um programa pouco conhecido do Departamento de Estado que distribui milhões de dólares a delatores há mais de três décadas.

O Programa de Recompensas de Narcóticos (NRP, na sigla em inglês) explora a tentação de se tornar multimilionário da noite para o dia. Nos últimos cinco anos, o NRP entregou quase US$ 32 milhões para 33 pessoas, sendo que algumas receberam US$ 5 milhões, de acordo com o Escritório de Assuntos Internacionais de Narcóticos e Aplicação da Lei do Departamento de Estado. O programa, segundo o governo dos EUA, resultou na prisão de quase 70 "grandes infratores estrangeiros" desde sua criação. O preço total: US$ 108 milhões.

Recompensa dobrada

No mês passado, o governo de Trump colocou o NRP de volta no centro das atenções quando o (agora ex) procurador-geral dos EUA Jeff Sessions anunciou que a recompensa por Nemesio Oseguera Cervantes havia sido dobrada, para US$ 10 milhões. Cervantes, de 52 anos, é o famoso líder do Cartel Jalisco Nueva Generación. O grupo é supostamente "responsável pelo tráfico de muitas toneladas de cocaína, metanfetamina e heroína aditivada com fentanil para os EUA", afirma o Departamento de Estado.

Esse último item é crucial para entender a enxurrada de drogas que está inundando os EUA e como a força policial espera que o NRP possa ajudar a contê-la. Heroína e opioides sintéticos baratos estão fluindo para o norte para substituir analgésicos produzidos pelas empresas farmacêuticas que antes eram de fácil acesso. O resultado é uma epidemia nacional, em que as overdoses dispararam e a expectativa de vida nos EUA diminuiu.

Críticos dos programas de recompensa do governo alertam que as enormes somas em dinheiro aumentam a violência dos cartéis e estimulam a corrupção entre os policiais dos EUA. Mas é difícil ignorar o sucesso do programa, afirmam seus defensores.

Os alvos do NRP são anunciados em um site do governo dos EUA que parece uma versão barata do Tinder -- com fotos de perfil, biografias curtas, altura, peso e até mesmo a cor dos olhos. Também são listados os supostos crimes e qual é a recompensa para quem entregar o suspeito.

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