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Forte queda de setor de tecnologia assusta Vale do Silício

Sarah Ponczek e Jeran Wittenstein

19/11/2018 15h47

(Bloomberg) -- Steve Hoffman pega o microfone e, instantaneamente, irradia o otimismo típico do Vale do Silício. Com sua tradicional camisa xadrez roxa e azul, sua voz aguda ecoa pelas paredes de concreto e ele divulga o histórico de sua incubadora de startups e recita rapidamente os nomes que ajudou a propulsionar: Instagram, Etsy, Change.org, Foursquare.

Exclamações de admiração reverberam pela multidão na casa dos vinte anos de idade. Smartphones são levantados para filmar todas as palavras dele. Os jovens lotaram esta sala de conferências subterrânea em São Francisco para terem uma chance de conhecer investidores de capital de risco dispostos a apostar em seus sonhos. Quando Hoffman profere a última frase de seu discurso - "você pode ser o próximo unicórnio" - a multidão vai ao delírio.

Pouco antes disso, no entanto, Hoffman, ou Capitão Hoff, como ele gosta de ser chamado, tinha um tom decididamente mais pessimista enquanto conversava francamente, à espera da chegada do público. A verdade, disse ele, é que ele estava gastando muito pouco do próprio dinheiro. Após uma década de avaliações altíssimas no setor de tecnologia, a recente queda de 12 por cento no Nasdaq era esperável. Hoffman receia que a queda forte nos mercados de ações negociadas publicamente só vai piorar - e muito - o que, por sua vez, começará a baixar as altas avaliações das startups de capital fechado.

"Na verdade, estou bastante preocupado", disse Hoffman, que criou sua incubadora, a Founders Space, em 2011. Ele disse que retirou 80 por cento do dinheiro que tinha nos mercados públicos e 60 por cento do que tinha nos mercados privados. Tudo isso está em dinheiro vivo agora. "Não existe nada mais seguro que o dinheiro vivo."

O receio de Hoffman pode ser um pouco exagerado para os padrões do Vale do Silício - há quem discorde completamente dessa percepção lá -, mas evidencia uma nova e indiscutível realidade: o nervosismo provocado pela queda forte das ações de empresas de tecnologia deixou de ser exclusivo dos traders de Wall Street, aquele pessoal notoriamente mais agitado e ansioso do outro lado do continente. Não, até mesmo no coração do setor onde o otimismo exagerado e a atitude positiva fazem parte do DNA, dúvidas estão começando a surgir.

A maioria das ações de empresas de tecnologia já leva vários meses em queda. Alguns dos movimentos são impressionantes: a Netflix despencou 32 por cento em relação ao pico recorde atingido em julho; a Amazon caiu 22 por cento desde o começo de setembro; a Tencent, colosso chinês da tecnologia, recuou 38 por cento depois de bater um recorde em janeiro. Fabricantes de semicondutores também foram bombardeadas, com uma queda de 19 por cento desde o começo de junho. Isso também aconteceu com as fabricantes de hardware de tecnologia. Suas ações caíram 14 por cento em relação a um pico registrado em outubro. Ao todo, as empresas de tecnologia perderam US$ 1,1 trilhão em valor nos últimos dois meses e meio.

"O otimismo dos investidores está mais contido", disse Alex Chompff, um investidor anjo e consultor que levou alguns de seus amigos investidores para o evento da Founders Space. "Esse otimismo tem um teto que talvez não existisse há um ano."

--Com a colaboração de Julie Verhage e Alex Barinka.

Repórteres da matéria original: Sarah Ponczek em N York, sponczek2@bloomberg.net;Jeran Wittenstein em São Francisco, jwittenstei1@bloomberg.net