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Tensão Renault-Nissan cresce e protegido de Ghosn se fortalece

Matthew Campbell e Ania Nussbaum

21/11/2018 15h31

(Bloomberg) -- As tensões entre a Nissan Motor e a Renault sobre o futuro da parceria para a fabricação de carros vieram à tona em um momento em que a queda do presidente Carlos Ghosn agita a indústria automobilística e seu principal colaborador, Hiroto Saikawa, avança para consolidar poder em sua ausência.

As duas empresas, que estão conectadas por meio de uma estrutura complexa de participações cruzadas e fabricação conjunta, reagiram de maneira drasticamente diferente à prisão de Ghosn no Japão por suspeita de crimes financeiros.

Na terça-feira à noite, em Paris, o conselho da Renault se absteve de demitir o executivo franco-brasileiro e pediu à Nissan que entregasse os detalhes dos supostos delitos. A Nissan, por outro lado, afirmou depois que ele foi detido na segunda-feira, que pretende demitir Ghosn, 64, da presidência -- agindo com uma pressa que alimentou versões de que ele foi vítima de um golpe de Saikawa, que é CEO da Nissan, e de outras pessoas que se opõem a uma maior integração entre as duas empresas.

O conselho da Nissan se reunirá nesta quinta-feira para tomar uma decisão formal sobre o futuro de Ghosn.

Por sua vez, o conselho da Renault indicou que desconhecia os detalhes das acusações contra Ghosn. "Nesta etapa, o conselho não está em condições de comentar as evidências aparentemente reunidas pela Nissan e pelas autoridades judiciais japonesas contra o Sr. Ghosn", afirmou o conselho em comunicado.

Sem fiança

Ghosn, um dos executivos mais bem pagos da França e do Japão, é acusado de não ter declarado uma renda de cerca de US$ 44 milhões e de ter usado indevidamente fundos da empresa na Nissan. De acordo com a NHK, a Nissan pagou "somas enormes" para residências de Ghosn em quatro cidades do mundo, pagamentos que, segundo a emissora, não tinham justificativa comercial, e também cobriu o custo de férias de sua família. Ghosn não fez declarações sobre nenhuma das acusações nem foi visto em público desde que foi preso.

Tensões

O que está em jogo é mais do que o futuro pessoal de Ghosn.

O carismático executivo liderava a Nissan e a Renault, além de uma aliança mais ampla, que une as icônicas empresas francesa e japonesa com a Mitsubishi Motors, uma empresa de menor porte. Ele havia trabalhado em prol de uma fusão da Nissan e da Renault para solidificar o relacionamento de duas décadas das duas empresas. Essa união criaria uma rival direta para a Volkswagen e para a Toyota Motor pelo título de maior montadora do mundo.

Mas Saikawa minimizou publicamente essa possibilidade neste ano, o que gerou uma repreensão privada de Ghosn, seu antigo mentor, que advertiu ao colega japonês que esses comentários poderiam minar a credibilidade da Nissan, segundo uma pessoa com conhecimento do assunto.

Saikawa tem sido até agora o rosto da reação da Nissan à prisão de Ghosn, tendo aparecido sozinho em uma entrevista coletiva na segunda-feira, quando anunciou o plano da Nissan de destituí-lo. Ele teve palavras duras para o chefe preso. "Este é um ato que nossa empresa não pode tolerar", disse Saikawa, argumentando que uma concentração excessiva de poder nas mãos de Ghosn criou um ambiente propício para uma conduta indevida.

--Com a colaboração de Stephen Engle, Ma Jie, Kae Inoue e Keith Naughton.

Repórteres da matéria original: Matthew Campbell em Londres, mcampbell39@bloomberg.net;Ania Nussbaum em Paris, anussbaum5@bloomberg.net