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Líderes do G-20 acenam a Trump em linguagem comercial diluída

Raymond Colitt, Joshua Wingrove e Jennifer Epstein

02/12/2018 19h50

(Bloomberg) -- Líderes das maiores economias do mundo concordaram que o sistema global de regras que sustenta o comércio há décadas é falho, segundo uma declaração pós-cúpula neste sábado, que a Casa Branca rapidamente classificou como uma vitória para a agenda protecionista de Donald Trump.

O comunicado do Grupo dos 20 foi o ápice de dias de conversações. Algumas autoridades disseram que apenas ter uma declaração foi um bom resultado, dada a intensa discussão sobre questões como comércio, imigração e clima. Ainda assim, a linguagem diluída sugere mais testes adiante para defensores da globalização e instituições como a Organização Mundial do Comércio.

O comunicado emitido no final da reunião de dois dias em Buenos Aires, Argentina, omitiu pela primeira vez uma referência ao risco de protecionismo. Embora os líderes reconheçam os benefícios do comércio multilateral, eles disseram que o sistema está "aquém de seus objetivos e há espaço para melhorias". Eles se comprometeram a reformar a OMC, o principal órgão mundial para regulamentações comerciais, e discutirão isso em sua próxima reunião em junho, no Japão.

Um alto funcionário da Casa Branca elogiou o documento, particularmente a linguagem que pede mudanças na OMC e no comércio global. A adição de texto para explicar a decisão de Trump de sair do acordo climático de Paris também foi bem recebida pelos EUA, disse a autoridade. Embora o comunicado dissesse que os signatários do acordo o reafirmam como irreversível, havia uma linha separada incluída abaixo com a posição dos EUA.

Os EUA conseguiram o melhor negócio dos 19 delegados restantes, de acordo com Thomas Bernes, um distinto colega no Centro de Inovação em Governança Internacional do Canadá.

"Esta é a formulação mais fraca sobre comércio que já tivemos", disse Bernes. "Os 19 escolheram enterrar suas diferenças e emitir um comunicado enfraquecido, o que levanta questões sobre sua capacidade de mostrar liderança resoluta."

O anfitrião Mauricio Macri, da Argentina, disse que a reforma da OMC era necessária para "comércio justo, fair play" - linguagem frequentemente usada por Trump. Ainda assim, nem todos viram o acordo como uma vitória para Washington, e funcionários de países não-americanos decidiram descartá-lo após sua divulgação.

"Do meu ponto de vista, é uma vitória do multilateralismo", disse Marcello Estevão, vice-ministro das Finanças do Brasil.

A russa Svetlana Lukash disse que o comunicado foi um "grande sucesso" e mostrou que os cinco dias de elaboração não foram desperdiçados. A cúpula foi "salva", acrescentou ela. "Só conseguir o comunicado foi um sucesso."

Questões de lado

A falta de uma referência aos riscos do protecionismo não foi surpreendente, considerando que muitos membros do G-20 têm aumentado suas barreiras ao comércio, disse um alto funcionário envolvido nas discussões. Negociadores da China e da Europa também pressionaram pela linguagem no comunicado sobre a necessidade da reforma da OMC, então não foi uma vitória apenas para os EUA, acrescentou o funcionário.

Como frequentemente nos comunicados do G-20, algumas das questões mais urgentes do mundo foram deixadas de lado. Enquanto vários líderes discutiram a agressão russa contra a Ucrânia no Estreito de Kerch diretamente com Vladimir Putin, não houve referência a ela na declaração. Nem houve menção à preocupação que muitos líderes têm sobre o assassinato brutal de colunista e crítico Jamal Khashoggi em outubro no consulado da Arábia Saudita, em Istambul.

O documento emergiu após uma semana de negociações difíceis, oferecendo alívio aos funcionários que temiam a repetição de reuniões recentes como a cúpula de Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico, em Papua Nova Guiné, quando nenhuma declaração final foi emitida. A cúpula do G-7 no início deste ano foi suspensa quando os EUA retiraram o seu apoio à declaração conjunta após a sua publicação formal.

Os líderes saudaram o forte crescimento econômico global, mas disseram que "tem sido cada vez menos sincronizado entre os países" e que os principais riscos, incluindo preocupações geopolíticas e vulnerabilidades financeiras, se materializaram. Eles concordaram que a política fiscal "deve reconstruir os locais onde for necessário, de forma flexível e favorável ao crescimento, ao mesmo tempo em que garante que a dívida pública esteja em um caminho sustentável".

Mas a prioridade parecia estar em salvar a cúpula em si. O presidente francês Emmanuel Macron disse que a ausência de reuniões como as do G-20 estimularia as guerras comerciais, enquanto Putin disse que o comunicado era útil, mesmo que fosse de natureza geral.

"Ao longo dos anos, este fórum demonstrou repetidamente seu valor à medida que procuramos construir um mundo mais estável e próspero", disse o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau. "Toda vez que as principais economias do mundo se unem e se comprometem a trabalhar juntas nas grandes questões que importam - para os canadenses e para os cidadãos do mundo - isso é uma coisa boa."

--Com a colaboração de Ilya Arkhipov, Patrick Gillespie, Jorgelina do Rosario e Shawn Donnan.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Leonardo Lara, llara1@bloomberg.net

Repórteres da matéria original: Raymond Colitt em Brasilia, rcolitt@bloomberg.net;Joshua Wingrove em Ottawa, jwingrove4@bloomberg.net;Jennifer Epstein em Washington, jepstein32@bloomberg.net

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