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Mineradoras globais de lítio ignoram turbulência na Argentina

Laura Millan Lombrana e Jonathan Gilbert

05/12/2018 12h03

(Bloomberg) -- Risco alto, recompensa idem. É esta a aposta de mineradoras globais de lítio na Argentina, que passam por cima de recessão, crise cambial e incerteza política para extrair o mineral usado na bateria dos carros elétricos.

Com demanda crescente e oferta limitada, o preço do lítio triplicou nos últimos quatro anos. A reação das empresas do ramo é tentar construir novas minas na Argentina e no Chile, que estão entre os maiores produtores mundiais.

Embora o Chile tenha maior estabilidade econômica, as líderes Albemarle e Sociedad Química y Minera de Chile penam para obter licenças para expansão. Já na Argentina, o presidente Mauricio Macri tenta emplacar uma agenda mais favorável ao setor privado.

"Pela experiência recente de SQM e Albemarle, prefiro fazer negócio na Argentina do que no Chile", disse John Kanellitsas, vice-presidente executivo da canadense Lithium Americas, que embarcou em um projeto de quase US$500 milhões em parceria com a chinesa Jiangxi Ganfeng Lithium na província de Jujuy.

"Na Argentina, é preciso ter um pouco de paciência no longo prazo", disse Kanellitsas. "Mas achamos que a situação se resolverá favoravelmente."

Boom do lítio

O país está no estágio inicial de um boom da produção de lítio, de acordo com relatório da Economist Intelligence Unit. Segundo o estudo, duas minas estão produzindo e mais de 60 projetos estão em desenvolvimento, sendo que cinco estão quase prontos. O investimento em projetos de lítio se multiplicou por dez nos últimos cinco anos, de acordo com relatório divulgado em agosto pelo subsecretário argentino para Desenvolvimento da Mineração, Mariano Lamothe.

Argentina e Chile são pontas do chamado triângulo do lítio, uma vasta área com salinas nos Andes que chega até a Bolívia ? país que tem a segunda maior reserva mundial do mineral e tenta impulsionar a produção há anos, sem sucesso. A Bolívia produziu 250 toneladas neste ano e informa que os investimentos em diversos projetos aumentarão sua capacidade para 150.000 toneladas em cinco anos.

O Chile é tradicionalmente um grande produtor e Albemarle e SQM atuam por lá há mais de duas décadas. Companhias com menos experiência ainda não conseguiram abrir novas minas por causa de regulamentos complexos e oposição das comunidades locais.

A Albemarle só recebeu autorização para ampliar a produção após aceitar pagar mais royalties, em 2017. A SQM conseguiu licença para produzir mais neste ano e também vai pagar mais royalties."O ambiente regulatório é muito complexo no Chile", disse Andrew Miller, analista sênior da Benchmark Mineral Intelligence. "Mas duvido que qualquer uma das grandes regiões produtoras de lítio esteja imune a turbulência e volatilidade no momento."

Investidores mantinham distância da Argentina por causa das incertezas políticas e econômicas, que incluíram nacionalização da petrolífera YPF pela ex-presidente Cristina Fernandez de Kirchner. A postura de Macri mudou o quadro, de acordo com Fiona Mackie, diretora regional da Economist Intelligence Unit para América Latina e Caribe.

"Sob o governo Macri, vimos um progresso que vai atrair investidores de longo prazo do setor de mineração de lítio", afirmou Mackie. "A Argentina está como a menina dos cachinhos dourados: acertou a regulamentação e tem enormes reservas de lítio em um contexto de demanda crescente."

--Com a colaboração de Susanne Barton.

Repórteres da matéria original: Laura Millan Lombrana em Santiago, lmillan4@bloomberg.net;Jonathan Gilbert em Buenos Aires, jgilbert63@bloomberg.net

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