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B3 vai `brigar' para que XP faça IPO no Brasil, diz presidente

Cristiane Lucchesi e Felipe Marques

2019-01-11T07:00:00

11/01/2019 07h00

(Bloomberg) -- O presidente da bolsa de valores brasileira, Gilson Finkelsztain, promete lutar para que a XP Investimentos faça sua oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) no mercado local, e não nos Estados Unidos.

"Na XP, vamos brigar para que eles se listem aqui no Brasil. Eles são brasileiros, com negócios aqui, deveriam se listar aqui. Nosso time comercial e eu pessoalmente vamos estar empenhados para isso," Finkelsztain disse em entrevista. "A XP é emblemática, um enorme caso de sucesso que provou que há espaço para uma corretora independente no Brasil."

A XP Investimentos SA, a maior corretora do país para investidores de varejo, está considerando um IPO na Nasdaq, de acordo com uma pessoa familiarizada com o assunto. O IPO proporcionaria uma saída para os investidores de private equity, como a General Atlantic LLC e a Dynamo Administracao de Recursos Ltda, a pessoa disse, pedindo para não ser identificada porque nenhum anúncio oficial foi feito.

O interesse da XP em fazer sua oferta em Nova York vem no rastro do sucesso que outras empresas brasileiras tiveram ao levantar mais de US$ 5 bilhões nos Estados Unidos sem listagem no Brasil.

Há vários obstáculos que Finkelsztain vai ter que superar para conseguir que companhias como essas se listem na bolsa local. Eles incluem vantagens fiscais para empresas brasileiras domiciliadas no exterior e regras que impedem que essas firmas sejam negociadas na bolsa local.

"Estamos trabalhando com a CVM para tornar algumas regras mais flexíveis e o regulador é muito sensível ao que chamamos de exportação do mercado", disse Finkelsztain.

O presidente da bolsa admitiu que empresas brasileiras conseguiram um preço inicial mais atrativo ao se listarem em Nova York. No ano passado, as ofertas das empresas de pagamentos PagSeguro Digital Ltd. e StoneCo Ltd. e da empresa de educação Arco Platform Ltd. levantaram mais de US$ 5,34 bilhões na Bolsa de Nova York e na Nasdaq.

A concentração dos investidores especializados no setor de tecnologia nos EUA explica porque muitas empresas decidem se listar lá. "Esta é uma tendência internacional e afeta empresas do Japão a Israel e à Austrália", disse Finkelsztain. "E isso não é bom para os mercados brasileiros."

Embora a B3 não tenha concorrentes locais, "estamos competindo com bolsas de valores, com mercados em todo o mundo", disse ele.

Há também um incentivo fiscal para as empresas estabelecerem seu domicílio fora do Brasil e "isso é algo que precisa de atenção", disse ele.

Finkelsztain disse que está trabalhando com a CVM para desenvolver "um ambiente mais amigável" que permita que as empresas brasileiras listadas em Nova York também sejam negociadas nos mercados locais. "Assim, os fundos locais não precisariam comprar dólares e ir aos mercados dos EUA para comprar ações dessas empresas brasileiras", disse ele. A B3 poderia ganhar uma comissão por negociação.

As empresas locais domiciliadas no exterior, com mais de 50 porcento da receita proveniente do Brasil, não podem emitir BDRs, a versão brasileira dos American Depositary Receipts, disse Finkelsztain. Uma solução seria permitir que essas empresas façam uma listagem simultânea no Brasil e no exterior, disse ele.

Para aumentar a atratividade dos IPOs locais, a B3 também está considerando permitir processos confidenciais para empresas menores. Assim, a empresa pode recuar se o mercado se voltar contra ela ou se o preço não for atraente sem sofrer os danos à sua reputação que uma desistência pública poderia trazer.

Finkelsztain disse que algumas companhias brasileiras tentam se "disfarçar de empresas de tecnologia" quando se listam nos EUA, para pegar carona no apelo da indústria com os investidores. "Mas os investidores logo perceberão isso e as empresas terão problemas", disse ele.

Embora os preços iniciais das fintechs brasileiras tenham sido muito atraentes, o desempenho de seus papéis desde os IPOs não foi tão bom, disse ele. As ações da PagSeguro subiram 2,42 porcento desde o IPO, enquanto a StoneCo - cuja oferta atraiu os bilionários Warren Buffett e Jack Ma - caiu 12 por cento. Em contrapartida, o preço das ações do Banco Inter, uma fintech bancária que arrecadou R$ 672,4 milhões em abril na B3, mais do que dobrou em moeda local desde então.

"As ações da PagSeguro e da StoneCo têm uma grande correlação com a Amazon.com", disse ele, observando que, embora essas empresas tenham a maior parte de sua receita em moeda brasileira, elas tendem a reagir mais a movimentos globais das ações de tecnologia do que a oscilações no real.

O negócio de ações da B3 tende a se beneficiar do crescimento econômico, que será alimentado pela inflação sob controle e taxas de juros na mínima histórica, disse. Ele espera de 20 a 30 ofertas de ações neste ano, a partir de março. O trading de ações representa cerca de 40 porcento da receita da B3, disse ele.

O negócio de balcão, que inclui registro, trading e fornecimento de serviços de custódia para títulos corporativos, bancários e derivativos, pode ser um destaque neste ano, disse Finkelsztain. Essa operação representa cerca de 25 porcento da receita da empresa, com outros 25 porcento provenientes de contratos futuros negociados em bolsa. A demanda por hedge cambial pode cair com uma menor volatilidade na moeda, disse ele.

Sobre o novo governo brasileiro, Finkelsztain disse estar "muito entusiasmado", porque a equipe econômica tem uma "visão alinhada pró-mercado" e quer reduzir a intervenção do Estado e encorajar privatizações. "Eles reconhecem a urgência em aprovar a reforma da Previdência e têm a força política para fazer isso nos primeiros três a seis meses do governo."

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