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Petrobras quer usar dinheiro da cessão onerosa em petróleo

Sabrina Valle

12/03/2019 18h26

(Bloomberg) -- A Petrobras quer chegar no fim do ano com mais petróleo do que dinheiro no bolso depois de resolver o imbróglio da cessão onerosa, segundo o presidente Roberto Castello Branco.

"Toda companhia de petróleo precisa ter mais recursos, reservas potenciais'', disse Castello Branco em Houston, onde participa da conferência Cera Week. "Tanto é ruim viver com escassez de caixa como é ruim viver com excesso de caixa. Os dois são problemáticos - e eu não quero isso.''

É uma mudança de postura em relação aos quatro ex-presidentes da Petrobras que já tentaram conseguir chegar a um entendimento com o governo para destravar bilhões de dólares enterrados numa reserva de petróleo com até 20 bilhões de barris estimados. Por anos, a área chamada de cessão onerosa era vista pelo mercado como uma salvação para as agruras financeiras da Petrobras, que chegou a ser a mais endividada do setor de petróleo no mundo.

Um mês depois de anunciar o primeiro lucro anual em cinco anos e retornar a níveis de endividamento aceitáveis internamente pela empresa, Castello Branco diz que quer devolver ao governo o que receber, comprando licenças da área, num leilão anunciado para outubro.

"Não temos nenhum plano de usar o dinheiro do contrato da cessão onerosa para abater dívida ou financiar outros investimentos. Simplesmente vamos retorná-lo ao governo.''

Castello Branco disse que recusaria um excesso de caixa mesmo que chegasse, brincou, de presente pelas mãos de seu amigo e ministro da Economia, Paulo Guedes, que o indicou para a posição.

"Vamos dizer que o ministro da economia, meu amigo de longa data, dissesse: gosto muito do Roberto, o governo está nadando em dinheiro e vou dar a ele US$ 30 bilhões. Eu diria: não, não quero", disse.

As negociações com o governo ao longo dos anos variavam de uma possibilidade de pagamento pelo governo à Petrobras de zero a US$ 30 bilhões. Seria um ressarcimento pelos direitos a 5 bilhões de reservas que a companhia comprou em 2010, quando os preços do petróleo estavam mais caros. O contrato previa revisão em caso de queda da cotação internacional, o que aconteceu.

"Quero simplesmente receber o que foi devido, pagar o bônus de subscrição e ir à luta", disse, referindo-se ao leilão planejado para outubro dos campos de Atapu, Búzios, Itapu e Sépia na região do pré-sal.

No mês passado, o governo anunciou que a Petrobras vai receber não uma, mas duas compensações. A primeira, a compensação pelo governo, era conhecida e ansiosamente esperada pelo mercado pelo menos desde 2013. Um valor é aguardado para o fim deste mês. O presidente da Petrobras diz que só há espaço para pensar nesta negociação no momento.

A segunda compensação, anunciada numa resolução do CNPE, foi uma novidade. É mais um número para o mercado ansiar por conta da cessão onerosa. Possíveis petroleiras parceiras que se associarem à Petrobras no leilão terão que compensar a estatal brasileira por investimentos já feitos por ela na área. Além disso, também é possível negociar que as parceiras invistam na área em nome da Petrobras, uma operação chamada de carrego. Todos os valores são potencialmente na casa do bilhão.

Segundo Castello Branco, são negociações independentes.

"Existe uma questão do diferimento. Mas é uma questão ainda a ser discutida", disse. "A possibilidade de carregar também. Se é parcial, ou quão parcialmente, depende de uma outra negociação."

Castello Branco, que assumiu o cargo em janeiro, é o quinto presidente da empresa a tentar resolver as negociações desse contrato. No governo de Jair Bolsonaro, favorável aos negócios, há um alinhamento sem precedentes entre a Petrobras e a equipe econômica, o que torna a solução mais viável.

Ele confirmou que empresas como a Exxon Mobil, a Royal Dutch, a BP e a Total demonstraram interesse em fazer uma parceria com a Petrobras no leilão de outubro, no qual o Brasil espera levantar até R$ 100 bilhões para reduzir um enorme déficit fiscal.

O presidente da Petrobras confirma que empresas como Exxon, BP, Shell e Total já mostraram interesse em serem parceiras da estatal na cessão onerosa.

"Costumo dizer que a Petrobras é a noiva que todo mundo quer casar'', brincou. "Essa é a parte mais fácil."

Para contatar o editora responsável por esta notícia: Marisa Castellani, mcastellani7@bloomberg.net