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Brasil vai acabar na 'zona cinzenta' mesmo com reforma, diz SPX

Felipe Marques e Vinícius Andrade

28/05/2019 10h52

(Bloomberg) -- A grande maioria dos investidores vê na reforma da Previdência a questão decisiva para os mercados no Brasil hoje. Porém, um dos maiores gestores de fundos do país já está preocupado com o que vem a seguir.

"O governo provavelmente vai entregar algo aceitável em termos de reforma da Previdência, mas estou um pouco preocupado com o que vamos conseguir fazer depois", disse Leonardo Linhares, sócio da SPX Capital, a maior gestora independente do Brasil, com quase R$ 40 bilhões sob gestão. "Não estou animado com os próximos passos."

Linhares, responsável pela mesa de ações da SPX, diz que o governo provavelmente queimará muito do seu capital político para impulsionar a reforma da Previdência no Congresso. Isso significa que qualquer outra coisa na agenda econômica que dependa da aprovação dos legisladores ficará mais difícil depois. Sem essas micro-reformas -- que incluem mudança no sistema tributário do Brasil, privatização de empresas estatais e venda de outros ativos do governo -- é improvável que o país tenha uma disparada de crescimento nos próximos anos, diz ele.

A reforma da Previdência é a pedra fundamental do plano do governo para reforçar as contas públicas. O projeto teve um começo turbulento de tramitação no Congresso e levou semanas para passar na CCJ, em meio a forte reação da oposição e falta de coordenação da base do governo. Agora, está na comissão especial, onde será discutida em até 40 sessões e deve passar por mudanças.

Zona Cinzenta

A SPX espera que a reforma da Previdência seja aprovada pela Câmara dos Deputados no final do terceiro trimestre, trazendo uma economia de menos de R$ 600 bilhões em uma década -- em comparação à proposta original que pouparia mais de R$ 1 trilhão. Isso deve abrir caminho para que a economia cresça cerca de 2% ao ano nos próximos anos, espera a gestora. Para 2019, a expectativa é o Brasil crescer 1,24%, segundo a pesquisa Focus do Banco Central, metade do que era esperado há três meses.

"Não acreditamos que o Brasil vá quebrar, mas também não será um passeio no parque: entraremos na zona cinzenta", disse Beny Parnes, economista-chefe da SPX. "Eu não vejo um grande impulso de confiança vindo."

A razão para o crescimento brasileiro decepcionante, mesmo com taxas de juro na mínima histórica, tem deixado Parnes intrigado. A incerteza pode ser parte da explicação, já que o setor privado ainda está resistente a preencher a lacuna deixada pela retração do governo na economia. O ex-diretor do Banco Central tem culpado algo que ele apelidou de o "pequeno fantasma" pelas decepções.

"Há algo arrastando a economia para baixo, ela deveria estar se recuperando em um ritmo mais rápido. E nós não sabemos o que esse pequeno fantasma é", disse Parnes.

Ainda assim, ele vê alguns pontos positivos à frente, especialmente com a enxurrada de negócios que devem acontecer no setor de óleo e gás, enquanto o governo prepara várias concessões de campos de petróleo.

Ele também elogia o trabalho da equipe econômica de Bolsonaro e diz que Paulo Guedes está "fazendo três trabalhos diferentes por um único salário": o de ideólogo da política econômica, o de encontrar formas de executar essas ideias e o de negociador com o Congresso - uma arena em que esbarra nas disputas internas entre o governo e os principais aliados.

Não tão barato

O crescimento econômico abaixo do esperado, as idas e vindas da reforma da Previdência e as preocupações com a guerra comercial entre EUA e China levaram o Ibovespa a reduzir o seu ganho anual. Desde o seu pico em meados de março, o índice acumula queda de cerca de 11% em dólar.

Linhares disse que está adotando uma postura mais neutra em relação às ações domésticas, já que os papéis não estão "tão baratos como alguns dizem". Em uma carta mensal recente, a SPX disse que zerou a exposição direcional comprada da carteira, seguindo alocada em empresas dos setores de óleo e gás e utilities contra o Ibovespa.

O principal fundo da SPX, Nimitz, acumula um retorno potencial de 251% desde o seu lançamento em dezembro de 2010, quase o dobro do CDI.

"Não estou pessimista. Acredito que a reforma da Previdência garantirá ao Brasil dois ou três anos de crescimento", Linhares disse. "Mas, infelizmente, estamos perdendo uma oportunidade para mais."

--Com a colaboração de Shin Pei.

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