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Agronegócio


Com café mais barato, Brasil consegue produzir mais com menos

Fabiana Batista

10/06/2019 11h42

(Bloomberg) -- O cafezal de Rodrigo de Freitas Silva está florescendo no coração do Brasil, mesmo durante uma das piores quedas de preço em décadas.

Nos últimos 12 anos, o cafeicultor de 41 anos expandiu sua área plantada de 12,5 hectares para 220 hectares, duplicando a produtividade. Toda a fazenda é mecanizada, e 90% é irrigada. O mais importante é que, mesmo com os preços do café sendo comercializados globalmente perto dos níveis mais baixos em 13 anos, o negócio de Silva é lucrativo e sua expectativa é aumentar a produção com produtividade potencialmente maior em áreas mais extensas.

"Ainda tenho espaço para triplicar minha área plantada de café, considerando apenas a infraestrutura nas fazendas que já tenho", disse Silva, ao mostrar um espaço onde será construído um laboratório para classificar o café em sua fazenda no município de Jeriquara, no estado de São Paulo.

O boom do café brasileiro apresenta enormes desafios para cafeicultores em várias partes do mundo. Muitos agricultores, da Nicarágua à Tanzânia, produzem menos sacas de café por hectare, têm maiores custos com fertilizantes e mão de obra e exportam a taxas de câmbio que não são tão favoráveis quanto as do real. A desvalorização da moeda brasileira em relação ao dólar aumentou a rentabilidade dos exportadores, um incentivo a mais para a expansão da produção.

Muitos cafeicultores de outros países precisam negociar com preços de referência na ICE Futures em Nova York que estão abaixo dos custos de produção. Com isso, perdas prolongadas e acesso limitado ao crédito levam cafeicultores de diversas partes do mundo a deixar o negócio.

Nenhum sinal desses problemas foi visto durante um giro na semana passada por mais de 1.700 quilômetros de cafezais desde a região de Mogiana, em São Paulo, até as regiões sul e do Cerrado, em Minas Gerais, áreas que juntas produzem 70% dos grãos de café arábica do Brasil, a variedade preferida de torrefadores como o Starbucks.

"Estou expandindo para novas áreas e renovando antigos cafezais com o dobro da produtividade", disse Silva, que não tem planos de parar de investir porque os preços do café estão mais baixos. "Ainda tenho lucro com o café."

Silva espera colher 30% mais grãos arábica em 2020 na comparação com 2018, quando seus cafezais estavam no ano de maior produção do ciclo de dois anos da cultura. Ele reinveste o lucro para expandir, mecanizar, irrigar e fertilizar intensamente a fazenda. Em 2016, a produção em uma parte do cafezal chegou a 136 sacas por hectare, bem acima da produção média de cerca de 50 sacas.

A viagem da semana passada pelo cinturão do café revelou principalmente cafeeiros saudáveis --e bem-cuidados. Ao longo das estradas em São Paulo ou Minas Gerais, novos cafezais surgiram, cercados por colheitadeiras e até mesmo gigantes piscinas para irrigação.

Agricultores brasileiros usaram os ganhos de épocas de cotações mais altas para mecanizar, substituir cafeeiros de baixa produtividade e melhorar o plantio. Isso impulsionou a produção e reduziu os custos para muitos cafeicultores.

A menos que surjam problemas climáticos extremos, em 2020 o país poderá colher outra safra recorde de até 70 milhões de sacas, segundo Marcos Figueiredo, agricultor e operador de um armazém de café no município de Araguari, em Minas Gerais.

Essa ampla oferta explica por que os contratos futuros talvez não se sustentem em níveis mais altos, disse Rodrigo Costa, diretor da trading Comexim, em entrevista por telefone. Além do Brasil, o Vietnã e a Colômbia também investiram nos últimos anos para aumentar a produção, elevando a oferta global, disse Costa.

(Com a colaboração de Kevin Varley)

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