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BC dos EUA erraria ao baixar juro agora: Bloomberg Opinion

Narayana Kocherlakota

14/06/2019 15h03

(Bloomberg) -- A perspectiva para a economia americana ficou mais sombria ultimamente. Preocupações relativas a guerras comerciais e à demanda das famílias pesam sobre a confiança. Por isso, eu e muitos outros esperamos que o banco central (Federal Reserve) ofereça algum estímulo, baixando a taxa básica de juros em até 0,5 ponto percentual nos próximos meses.

Mas se o objetivo é proteger a economia de uma derrapada, esta não seria a melhor tática.

Dados correntes da economia em geral não dão argumentos em favor de estímulo imediato. Excluindo o setor agrícola, foram criadas mais de 150.000 vagas por mês no último trimestre, o que é mais do que suficiente para sustentar o pleno emprego. A taxa de desemprego de maio, de 3,6%, é a mais baixa em quase meio século. O núcleo de inflação (que exclui preços de alimentos e combustíveis, mais voláteis) oscila entre 1,5% e 2% -- mesmo patamar em que estava desde que o Fed anunciou a meta de 2%, há sete anos.

Então por que cortar o juro agora? O Fed teme choques adversos contra o crescimento econômico -- talvez por causa das perturbadoras mudanças na política comercial da Casa Branca. Concordo que o banco central precisa lidar com esse risco. Mas na ausência de dados concretos, reduzir a taxa básica de juros causaria problemas. Alguns agentes poderiam desconfiar que o Fed está respondendo a pressões políticas ou agindo para beneficiar o mercado acionário.

Dito isso, o Fed tem maneiras mais diretas para mitigar riscos ao crescimento. Por exemplo, pode se comprometer com um plano de ação claro e ousado se surgirem sinais de desaceleração econômica. Especificamente, o banco central pode prometer levar o juro básico de volta para 0,25% -- onde ficou entre 2008 e 2015 -- se a taxa de desemprego subir para 4,1% (0,5 ponto acima da leitura atual) e permanecer nesse nível por um período de três meses. Para demonstrar seu empenho contra uma recessão, a instituição também pode prometer manter o juro em 0,25% pelo menos até o desemprego recuar para abaixo de 4,1%. Claro que precisaria haver uma cláusula de escape que permita ao Fed elevar os juros na eventualidade de a inflação passar de 2,5%, por exemplo, o que é improvável.

Um plano tão transparente traria diversas vantagens. Uma delas seria o efeito salutar imediato. Se empresas e consumidores acreditarem que o Fed vai agir adequadamente para manter a expansão nos próximos anos, ficam inclinados a gastar agora. Outra vantagem seria dar uma resposta firme e contundente se fontes de recessão ganharem relevância. Talvez mais importante, o plano seria alicerçado em um indicador econômico -- o desemprego -- de clara importância para o público para o qual o Fed trabalha.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião do comitê editorial ou da Bloomberg LP e seus proprietários.

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