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Mudança climática ameaça energia limpa mais antiga do mundo

Gerald Porter Jr. e Jeremy Hodges

24/06/2019 09h22

(Bloomberg) -- A represa de Kariba se impõe sobre um dos mais poderosos rios da África há 60 anos, formando o maior reservatório do mundo e fornecendo eletricidade confiável para a Zâmbia e o Zimbábue.

Mas, com a seca que assola a região, o fluxo no Rio Zambeze diminuiu para um terço do volume há um ano. No mês passado, a estatal de energia elétrica da Zâmbia começou a reduzir a capacidade, o que provocou apagões diários que deixaram mais de 17 milhões de pessoas no escuro.

"A represa de Kariba tem sido absolutamente essencial para essa região", disse Randall Spalding-Fecher, consultor de energia cuja tese de doutorado incluiu a análise de como a mudança climática pode impactar a geração de energia hidrelétrica no Zambeze. "O desafio é que o futuro não se parece com o passado."

Em todo o mundo, a mudança climática diminui a confiabilidade da energia hidrelétrica, uma vez que os rios que antes vazavam e fluíam com regularidade sazonal tornaram-se erráticos. No Brasil, a seca recorde desencadeou apagões em 2015. Na Califórnia, a geração das barragens mostrou fortes oscilações nos últimos anos. E, na Europa, a geração hídrica da espanhola Iberdrola alcançou um recorde em 2016, mas despencou 57% no ano seguinte.

A mudança tem profundas implicações para regiões que dependem de barragens para a geração de energia e leva concessionárias de serviços públicos e investidores a examinarem mais de perto o que há muito tempo é uma das maiores fontes de eletricidade livre de carbono.

"A energia hidrelétrica vai ser menos eficaz", disse Jenny Kehl, professor da Escola de Ciências de Água Doce da Universidade de Wisconsin-Milwaukee. "À medida que os níveis de água diminuem, a capacidade das usinas hidrelétricas de gerar eletricidade será reduzida."

As secas são apenas metade do problema. A Califórnia teve um de seus invernos mais chuvosos em 2017, o que inundou o lago que fornece a energia hidrelétrica de Oroville, a nordeste de São Francisco. A pressão bloqueou um vertedouro e provocou a remoção de quase 200 mil moradores na região.

O quase desastre em Oroville e outros semelhantes levaram empresas a fazerem altos investimentos para reforçar as barragens.

A Statkraft, maior geradora de energia da Noruega, mais do que duplicou os gastos na última década para reforçar as represas e resistir às fortes chuvas. A empresa planeja gastar 1,5 bilhão de coroas (US$ 176 milhões) em manutenção e modernização de hidrelétricas até 2025.

"O setor acordou", disse Mike Haynes, diretor de operações da Seattle City Light, que obtém 90% de sua energia de barragens hidrelétricas.

Embora a energia hidrelétrica tenha se tornado menos previsível em algumas regiões, a BloombergNEF prevê que sua participação no mix de eletricidade global cairá pouco nas próximas três décadas, de 16% este ano para 12% em 2050.

--Com a colaboração de Brian Eckhouse, Millicent Dent, Paul Burkhardt e Brian K. Sullivan.

Repórteres da matéria original: Gerald Porter Jr. em N York, gporter30@bloomberg.net;Jeremy Hodges em Londres, jhodges17@bloomberg.net

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