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Robôs agora podem decifrar linguagem de bancos centrais

Amanda Billner

25/06/2019 09h26

(Bloomberg) -- Os robôs estão prestes a decifrar um dos códigos mais difíceis do mundo: comunicados de bancos centrais.

Em questão de segundos, máquinas que imitam o cérebro humano podem ler comunicados densos e obscuros sobre políticas e depois oferecer uma previsão. Os humanos que desenvolvem e utilizam essas interpretações dizem que, na maioria das vezes, a inteligência artificial acerta.

Os robôs que aprendem ao longo do tempo "não só analisam as comunicações mais rapidamente que os humanos, mas também atenuam várias deficiências humanas", disse Evan Schnidman, fundador da Prattle Analytics, de St. Louis, que desenvolve e vende pesquisas geradas por computadores sobre 15 bancos centrais para hedge funds em Wall Street. "O viés de confirmação humana pode levar a erros analíticos substanciais."

Para autoridades de política monetária que há muito tempo dominam a arte de manejar as palavras, o crescente uso da tecnologia significa que precisam prestar ainda mais atenção às suas escolhas de linguagem, especialmente se os computadores aproveitarem os padrões históricos que os humanos tendem a deixar passar. Alguns bancos centrais já começam a examinar as comunicações através de máquinas para avaliar como serão interpretadas, embora a Prattle não revele quais.

Schnidman, que em seu doutorado na Brown University estudou como as comunicações dos bancos centrais impactam os mercados financeiros antes de fundar a Prattle em 2014, cobra US$ 60 mil por ano pelo acesso de três a cinco usuários às análises.

A rede neural dos robôs da Prattle leva cerca de 45 segundos para ler um comunicado de 500 palavras e mapeá-las em mais de 80 bilhões de conexões para aprender como a linguagem é interconectada. Em seguida, utiliza toda a linguagem anterior desse banco central para determinar o provável impacto no mercado. No caso da ata do Federal Reserve, a rede é ainda mais rápida: os clientes começam a receber análises em menos de um milissegundo.

Essa velocidade é uma das principais razões pelas quais os avanços da inteligência artificial estão subvertendo uma área de pesquisa que, até poucos anos atrás, poderia parecer impossível sem o senso comum humano.

Isso porque a tarefa exige não apenas rapidez, mas criatividade. Sempre foi difícil entender os formuladores de políticas, em parte devido à complexidade do assunto e, às vezes, deliberadamente. O ex-presidente do Fed, Alan Greenspan, disse em 1987 que "aprendeu a balbuciar com grande incoerência".

Atualmente, autoridades de bancos centrais estão, em geral, tentando tornar suas comunicações mais transparentes para um público amplo. Quando assumiu a presidência do Fed, Jerome Powell disse que tentaria se comunicar em um "inglês simples" e dobraria o número de conferências de imprensa.

Autoridades de política monetária sabem que suas palavras podem ser tão poderosas quanto suas ações na hora de influenciar os mercados. O presidente do Banco da Inglaterra, Mervyn King, ilustrou isso em 2005 com sua "teoria Maradona de taxas de juros". Ele se inspirou no jogador argentino que, na Copa do Mundo de 1986, driblou cinco jogadores ingleses para marcar um gol, apesar de correr em linha reta.

Mas os robôs ainda não são tão inteligentes, de acordo com Dirk Schumacher, economista em Frankfurt do banco francês Natixis, que este mês começou a publicar um índice de reação automatizado sobre os comunicados da reunião do Banco Central Europeu.

"A questão é quão inteligentes podem se tornar", disse. "Talvez daqui a alguns anos tenhamos algoritmos que acertem tudo, mas, neste momento, acho que é uma boa forma de checar as próprias avaliações."

--Com a colaboração de Paul Gordon e Matthew Boesler.

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