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Em país conservador, Riachuelo compra a briga da inclusão trans

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Imagem: Divulgação

Fabiola Moura

27/06/2019 11h59

(Bloomberg) -- Às 7h30 da manhã de uma terça-feira, a fila do lado de fora da fábrica do Grupo Guararapes chegava a 80 pessoas. Todas em busca de um emprego --costurar roupas, limpar o chão, servir refeições no restaurante da empresa, entre outras vagas. A fila se forma novamente sob o sol forte do meio-dia, na hora do almoço. Todos os dias.

Com cerca de 11 mil funcionários, a Guararapes Confecções é a maior empregadora no Rio Grande do Norte. Em um mês típico, a empresa contrata cerca de cem pessoas; durante a movimentada época do Natal, o número de contratações pode ser oito vezes maior. Para muitos moradores da capital Natal, também é sua melhor opção: a taxa de desemprego é de quase 14%.

Bya Ferreira trabalhou na portaria da fábrica por 16 meses, ajudando o departamento de recursos humanos na triagem dos candidatos. Extrovertida por natureza, começou como voluntária, escapando de sua função de bibliotecária no centro cultural, que ela achava um pouco solitária. No fim, acabou sendo oficialmente transferida para o departamento.

"Quando eu dava as palestras introdutórias, eu ouvia as pessoas comentando se eu era homem ou mulher", disse Bya. "Me sentia muito orgulhosa, porque o RH é o cérebro da empresa --isso fez eu me sentir abraçada."

Bya faz parte dos cerca de 500 trabalhadores transgêneros da Guararapes, um quórum que, segundo a empresa, a torna a maior empregadora de pessoas trans do país.

País conservador

É uma reputação incomum para uma empresa em qualquer lugar do mundo, e ainda mais em um país que elegeu para presidente Jair Bolsonaro, que já disse publicamente que preferia ter um filho morto do que gay. O presidente do conselho da empresa, Flávio Rocha, identifica-se como criacionista, é contra o casamento gay e, depois de desistir de disputar as eleições presidenciais, no ano passado, apoiou Bolsonaro.

O Brasil tem uma reputação internacional de tolerância sexual. O Carnaval tem uma longa tradição de homens travestidos, em desfiles, blocos e clubes. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é permitido no país e a parada do orgulho gay em São Paulo é uma das maiores do mundo, com cerca de 3 milhões de participantes.

Nos últimos dois anos, o Supremo Tribunal Federal facilitou a mudança de nome para pessoas trans e definiu a homofobia como crime equiparado ao racismo.

Ao mesmo tempo, o Brasil ainda é um país de maioria católica e com um crescente número de evangélicos. Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, traçou parâmetros rígidos de identidade de gênero em sua cerimônia de posse ao dizer que "menino veste azul e menina veste rosa".

Brasil é perigoso para pessoas trans

O Brasil é o lugar mais perigoso do mundo para pessoas trans, e as coisas não estão melhorando. Mais de 150 pessoas LGBT já morreram por homicídio ou suicídio este ano, em linha com a taxa de 2018, segundo o Grupo Gay da Bahia, uma organização sem fins lucrativos de Salvador.

"Somos preconceituosos e moralistas ao extremo," disse Fábio Mariano Borges, professor de sociologia da ESPM-São Paulo.

Na década de 1980, o baile Gala Gay, transmitido tarde da noite na TV aberta, mostrava travestis que trabalhavam em subempregos como prostitutas ou, na melhor das hipóteses, como cabeleireiras ou maquiadoras. Era uma forma de alertar as famílias para o horror que seria se um filho se tornasse gay, disse. "As pessoas trans no Brasil sempre foram relegadas ao que a sociologia chama de 'lugar da injúria'".

Isso contrasta com a atual retórica das multinacionais, com a adoção de políticas de "diversidade e inclusão". Muitas das maiores empresas em operação no Brasil, como Carrefour e Itaú Unibanco, declararam solidariedade à comunidade LGBT, incluindo funcionários e clientes.

Setenta empresas pertencem ao Fórum de Empresas LGBTI+, um grupo criado há seis anos que busca implementar dez compromissos de proteção e inclusão LGBT. Este mês, a Guararapes se uniu ao grupo.

Flávio Rocha é o atual presidente do conselho da Guararapes-Riachuelo - Nacho Doce - 13.abr.2018/Reuters
Flávio Rocha é o atual presidente do conselho da Guararapes-Riachuelo
Imagem: Nacho Doce - 13.abr.2018/Reuters

Empresa familiar se tornou gigante

Fundada em 1956 por Nevaldo Rocha e seu irmão Newton, a Guararapes se transformou em uma gigante de fast-fashion de US$ 2 bilhões, com 40 mil funcionários que trabalham em duas fábricas, três centros de distribuição, 312 lojas Riachuelo e outras operações.

A empresa fabrica mais de 80% das peças vendidas em suas lojas e importa o restante, como a linha infantil americana Carter's. Também fabrica produtos licenciados com personagens da Disney e criou coleções com ícones da moda como Karl Lagerfeld e Donatella Versace.

A fortuna da família Rocha agora vale cerca de US$ 1,7 bilhão. Nevaldo, que faz 91 anos em julho, ainda visita a fábrica de Natal todos os dias. "O que mais gosto nesta empresa é que ela gera empregos", disse. Muitas das vagas disponíveis não exigem muita educação formal --apenas cerca da metade dos brasileiros tem diploma de ensino médio-- e pagam em linha com o salário mínimo de R$ 998.

Myrella da Silva entrou na fila da fábrica de Natal em busca de emprego no início de 2018. Com apenas 21 anos, vinha com um currículo turbulento. Myrella vendeu perfumes nas ruas por três anos até que sua barraca de ambulante pegou fogo; ela acha que a banca foi queimada por um cliente que disse que pessoas trans não mereciam existir. Também trabalhou como prostituta por alguns anos.

Na Guararapes, foi contratada como costureira e recebe um salário de R$ 1.088.

"Um amigo me disse que aqui eles dão oportunidades para pessoas como eu e não são preconceituosos", disse Myrella, agora com 22 anos. Com seu salário ela ajuda a mãe e dois irmãos, que moram com ela. Depois de 11 anos distante, o pai de Myrella a procurou. "Ele pediu perdão e disse que, durante todos esses anos, tinha orado por mim", disse. "Eu o perdoei, mas ainda é difícil para mim chamá-lo de 'pai'."

Políticas de inclusão

Com uma população de 870 mil habitantes, Natal é grande e cosmopolita o suficiente para ter uma comunidade LGBT ativa, e a Guararapes ficou conhecida por sua sensibilidade e flexibilidade. Um dia, a supervisora de Bya Ferreira perguntou por que ela estava usando o crachá do lado contrário. Bya explicou que não gostava de mostrar seu nome de batismo masculino impresso no crachá.

Passados alguns dias, Bya recebeu um novo crachá com o nome social, disse. Pouco tempo depois, a empresa mudou sua política.

A fama de uma empresa que aceita pessoas trans correu rápido. Com mais funcionários trans ingressando na força de trabalho, a empresa continuou a se adaptar. No ano passado, em meio ao furor internacional sobre quem deveria usar qual banheiro, a empresa decidiu que os funcionários poderiam escolher o banheiro que se identificasse com seu gênero.

Myrella disse que a decisão foi um alívio, tanto emocional quanto prático. Antes da mudança de política, ela às vezes passava o turno inteiro sem usar o banheiro.

Nem todos os funcionários apoiaram a medida. A força de trabalho tem um grande contingente evangélico --um funcionário distribuía panfletos de "Jesus Cristo é o Pão da Vida" para colegas de trabalho e visitantes na semana passada. Quando a política para os banheiros mudou, uma costureira pediu demissão em protesto. Outras fizeram cara feia.

Empresário queria concorrer à presidência

No ano passado, Flávio Rocha renunciou ao cargo de presidente da empresa para se lançar como pré-candidato à presidência, e a oposição ao casamento gay fazia parte de sua plataforma.

Sua posição era fundamentada em suas crenças religiosas, não preconceito, disse, acrescentando que tem bons amigos que são gays. Alguns meses depois, decidiu não concorrer. Apoiou Bolsonaro e retornou à Guararapes como presidente do conselho. Rocha não quis dar entrevista.

Os defensores dos direitos LGBT ficaram furiosos com os comentários de Rocha durante a campanha e chamaram um boicote às lojas Riachuelo. A questão ainda não foi resolvida. "A postura da Riachuelo é para inglês ver", disse Weber Fonseca, ativista e autor do livro "lgbtfobia", publicado em 2015. "Todos seus funcionários trans estão no chão de fábrica e não na liderança."

O breve flerte de Rocha com a presidência foi "um projeto pessoal", disse Marcella Kanner, gerente de marketing da empresa e neta de Nevaldo. "A Riachuelo não tem vínculos políticos." O foco de Kanner agora inclui melhorar a diversidade racial na chefia, ainda predominantemente ocupada por pessoas brancas, enquanto 65% da força de trabalho é negra.

O equilíbrio de gênero tem melhor representação, diz, com 68% dos cargos de liderança ocupados por mulheres, espelhando a divisão na força de trabalho.

Flávio Rocha visita a fábrica de Natal de tempos em tempos. Nas unidades de costura, da fábrica, os funcionários escolhem a música que toca nos alto-falantes. Às vezes é "forró"; às vezes é pop evangélico. A cada duas horas, toca uma buzina, lembrando os funcionários que é hora de esticar as pernas.

"Não sei muito bem que pensar dos comentários que ele fez durante as eleições", disse Bya. "Será que foi só política?" Ela conheceu Rocha durante uma de suas visitas à fábrica. Segundo ela, ele foi simpático e a abraçou. Depois posaram para uma foto.

(Com a colaboração de Devon Pendleton)

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