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Um milhão de venezuelanos faz muita diferença em uma economia

Daniela Guzman e John Quigley

27/06/2019 14h45

(Bloomberg) -- O mercado levou um choque quando o Chile reduziu as taxas de juros este mês, mas o banco central tinha uma explicação simples: de repente, a economia tinha muito mais gente.

A mudança foi causada pelo êxodo da Venezuela. Cerca de 4 milhões de pessoas fugiram do colapso financeiro e social. Os venezuelanos estão espalhados por toda a América do Sul, forçando bancos centrais e ministérios de finanças a lidar com as consequências econômicas.

Os países anfitriões precisam encontrar recursos para assistência médica e educação, e a ajuda internacional é insuficiente para cobrir esses custos. O fenômeno tem causado problemas orçamentários para a Colômbia e o Peru, que receberam mais imigrantes. Além disso, há sinais de rejeição em muitos países, já que muitos recém-chegados competem por empregos.

O caso chileno também mostra benefícios potenciais, pelo menos a longo prazo, como explicado pelo banco central depois da surpreendente redução dos juros. Em resumo, este foi o argumento era: há mais pessoas disponíveis para trabalhar, mesmo que ainda não estejam fazendo isso. Isso abre espaço para que a economia cresça sem elevar os preços. O problema, especialmente para os trabalhadores, é que deve haver pressão de baixa sobre os salários.

"É uma expansão do PIB potencial", disse Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do Goldman Sachs. "É um choque para a força de trabalho que não é inflacionário."

Aproveitar isso, diz Ramos, "depende de como ocorre a integração dos imigrantes" e, especialmente, de que encontrem empregos na economia formal ou não.

As políticas dos governos podem fazer a diferença. O Chile provavelmente está na liderança.

Um exemplo é Vivian Montes, venezuelana de 27 anos que veio do Brasil. Montes é profissional de recursos humanos e conseguiu emprego em Santiago em uma grande empresa internacional.

Sua rede de colegas venezuelanos ajudou, mas também as regras chilenas. O mercado de trabalho é relativamente pouco burocrático, e Montes diz que autoridades e empresas se mostraram flexíveis.

"Quando cheguei pela primeira vez, os chilenos não entendiam o processo que os migrantes precisam passar para obter um visto de trabalho", disse. "Mas como muitos vieram, agora estão se adaptando." Como resultado, mais migrantes conseguem trabalhar em sua própria profissão, em vez de ficarem limitados a empregos com salários mais baixos.

Somando dezenas de milhares de histórias como a de Montes, o Banco Central do Chile chegou a uma estimativa mais alta para o crescimento econômico no médio prazo.

O banco - antes com uma postura hawkish - disse que a imigração acelerou o PIB potencial ao mesmo tempo em que reduziu a pressão sobre os salários e os preços. Isso permitiu o maior corte na taxa de juros em uma década, algo que não foi previsto pela maioria dos economistas.

No Peru, o banco central diz que a imigração pode ter desacelerado a inflação com o impacto da chegada dos venezuelanos, que reduziram os salários no varejo e em outros serviços. Ao mesmo tempo, o consumo contribuiu com 0,3 ponto percentual para o crescimento econômico no ano passado.

--Com a colaboração de Sebastian Boyd.

Repórteres da matéria original: Daniela Guzman em N York, dguzman26@bloomberg.net;John Quigley em Lima, jquigley8@bloomberg.net

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