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Wall Street adota modelo de aéreas de baixo custo para pesquisas

Justina Lee

15/07/2019 09h42

(Bloomberg) -- Caso já tenha voado com uma companhia aérea de baixo custo - tendo de pagar uma taxa extra por tudo, desde a escolha do assento até uma garrafa de água -, pode ter uma ideia de como as instituições financeiras vendem pesquisas hoje em dia.

Quer falar com o analista? Ou com o economista? Participar de uma conferência do setor? Solicitar uma reunião com um executivo? Encomendar um relatório personalizado? É provável que haja uma taxa para cada coisa, a menos que você tenha optado pela tarifa premium que inclui tudo.

Com as regras europeias que entraram em vigor no ano passado para promover a transparência e a proteção dos investidores, agora os bancos são obrigados a atribuir um preço a um serviço que, por décadas, foi oferecido como benefício extra para clientes de trading. Mas, depois de 18 meses, os preços continuam sendo um mistério para compradores e vendedores.

"É difícil tentar descobrir qual é o valor correto", disse Nick Burchett, diretor de renda variável para o Reino Unido da londrina Cavendish Asset Management, que administra 1,8 bilhão de libras (US$ 2,2 bilhões). "Não é como comprar um livro."

Poucos setores foram tão prejudicados na história recente do setor financeiro quanto a pesquisa: fatores como maior pressão de órgãos reguladores e concorrência com investimento passivo e inteligência artificial -- que tornam a função cada vez mais obsoleta -- diminuem cada vez mais a fatia do bolo de analistas. Os 12 principais bancos de investimento empregavam cerca de 3,7 mil pessoas em pesquisa de renda variável em todo o mundo no primeiro trimestre, uma queda de 14% em relação aos 4,3 mil há cinco anos, segundo dados da Coalition Development.

E, agora que os clientes precisam poupar recursos, os gastos com pesquisa caíram ainda mais, com grandes empresas ganhando uma participação ainda maior e boutiques personalizando seu nicho. Para o vasto número de empresas que ficam no meio, o desafio é grande. O mais recente exemplo ocorreu este mês, quando o BNP Paribas decidiu terceirizar grande parte da pesquisa em renda variável na Ásia com a Morningstar.

"Começamos a ver o 'buy side' consolidar seus provedores de pesquisa", disse Benjamin Quinlan, diretor executivo da consultoria de serviços financeiros Quinlan & Associates, em Hong Kong. "Caso esteja desembolsando dinheiro de seu próprio bolso para pesquisa, você não vai buscar o 9º ou 10º analista do ranking que o BNP possa oferecer. Você vai querer o primeiro, o segundo ou terceiro."

Uma pesquisa da Bloomberg com 27 bancos, corretoras, gestores de fundos e firmas de pesquisa especializadas mostra que o preço normalmente gira em torno de US$ 10 mil - valor do relatório de pesquisa cobrado pelo JPMorgan Chase, Deutsche Bank e Citigroup.

Alguns críticos, como a Associação Europeia de Provedores Independentes de Pesquisa, classificam o preço como predatório. A organização diz que um relatório de uma firma independente custa em média US$ 2 mil.

JPMorgan, Citigroup, Goldman Sachs, Morgan Stanley e Bank of America não quiseram comentar. O Deutsche Bank e a Autoridade Europeia dos Mercados de Valores Mobiliários não responderam a e-mails com pedidos de comentários.

--Com a colaboração de Nishant Kumar, Suzy Waite e Cathy Chan.