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Bancos centrais da América Latina se preparam para cortar juros

David Biller e Mario Sergio Lima

24/07/2019 11h57

(Bloomberg) -- Com a inflação sob controle na América Latina e as maiores economias da região flertando com a recessão, os bancos centrais se preparam para acompanhar autoridades de política monetária de outros mercados emergentes, da Ásia à África, no movimento de redução das taxas de juros.

No Brasil, as projeções apontam para um corte da taxa Selic pelo Banco Central na reunião do Comitê de Política Monetária marcada para a semana que vem. Seria a primeira redução em mais de um ano, e segue a alta menor do que a esperada do IPCA-15 na primeira quinzena de julho. Uma desaceleração do índice anual de preços ao consumidor do México na quarta-feira reforçou as perspectivas de afrouxamento monetário mais cedo ou mais tarde, e o Peru também sinalizou um possível corte das taxas.

Em outros países da região, o banco central do Chile surpreendeu com um corte de 50 pontos-base no mês passado e disse que poderia afrouxar sua política ainda mais este ano. Até mesmo o Paraguai reduziu sua taxa básica para o menor nível em oito anos, já que a inflação, abaixo da meta do banco central, permitiu a injeção de mais estímulo na fraca economia.

"As estrelas se alinharam para cortes das taxas de juros na América Latina", disse Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do Goldman Sachs.

As expectativas de que o Federal Reserve dos EUA corte o juro básico em breve incentivam os bancos centrais da América Latina a fazer o mesmo. Além disso, a desaceleração dos índices de inflação sinaliza uma fraqueza generalizada da atividade econômica na região. Segundo o Fundo Monetário Internacional, a América Latina deve crescer apenas 0,6% este ano - a expansão mais fraca em três anos. O resultado é puxado principalmente pela estimativa de crescimento do PIB de menos de 1% no Brasil e no México, as duas maiores economias da região.

Reforma da Previdência

O mercado doméstico também tem seu peso no cenário para os juros. O BC sinalizou que o avanço da reforma da Previdência é fundamental para um corte da Selic. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) passou no primeiro e mais difícil teste na Câmara dos Deputados este mês. E, após os economistas revisarem para baixo as estimativas de crescimento do PIB de 2019 por cinco meses consecutivos, até alguns ex-diretores do BC começaram a pedir uma redução significativa dos juros.

"A economia brasileira não está crescendo, e o balanço de riscos do Banco Central mudou de uma maneira que permite um corte dos juros na próxima reunião", disse Adriana Dupita, economista da Bloomberg. "Agora, o debate é sobre quão intenso será o ciclo de afrouxamento, quanto podem cortar e por quanto tempo."

Desaceleração no México

A perspectiva de crescimento frágil para a segunda maior economia da América Latina coloca o afrouxamento monetário no horizonte, possivelmente já em agosto, segundo a Capital Economics. As chances de redução da taxa podem aumentar ainda mais depois que o Fed cortar os juros nos EUA. Mudanças no conselho do banco central do México também podem ter impacto, mas não devem acontecer antes de 2021.

"O México vai acabar reduzindo drasticamente as taxas", disse Edwin Gutierrez, chefe de dívida soberana de mercados emergentes da Aberdeen Asset Management, em e-mail. "Enquanto isso, eles precisam lidar com o fato de ainda terem três 'hawks' no conselho. Isso vai mudar no ano que vem."

Entre as principais economias da região, quem destoa é a Argentina. A taxa básica de juros no país ainda é a mais alta do mundo, acima de 58%, mesmo depois da queda de mais de 15 pontos percentuais desde maio. O banco central tem mantido um forte ciclo de aperto monetário, com controles rígidos sobre a quantidade de pesos em circulação, com o objetivo de evitar uma desvalorização da moeda no período que antecede as eleições presidenciais de outubro.

Repórteres da matéria original: David Biller no Rio de Janeiro, dbiller1@bloomberg.net;Mario Sergio Lima em Brasilia, mlima11@bloomberg.net

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