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Presidente mexicano avança com propostas, apesar das críticas

Nacha Cattan, Eric Martin e Daniel Cancel

30/07/2019 14h56

(Bloomberg) -- O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, não parou para descansar desde que venceu as eleições com uma ampla margem em julho de 2018.

Fala praticamente todos os dias da semana, às 7h da manhã, do palácio presidencial na Cidade do México, fazendo anúncios e respondendo às inúmeras perguntas da imprensa. Antes disso, se reúne com sua equipe de segurança, às 6h da manhã, para avaliar os números mais recentes sobre a criminalidade. Nos fins de semana, viaja de trem para lugares distantes da capital, como Zongolica, Veracruz e Huejutla, Hidalgo, para conversar com os moradores e promover suas políticas sociais, que incluem transferências diretas de dinheiro para idosos e jovens.

Em seus oito meses no poder, López Obrador, de 65 anos, rompeu com a combinação de rigidez e pompa que marcou seus predecessores. O novo líder dispensou dezenas de guarda-costas que tradicionalmente acompanhavam o presidente mexicano e fechou a residência de 450 metros quadrados onde moraram 14 dos líderes do país desde 1934. Em sintonia com seu mantra de austeridade, colocou o avião presidencial à venda e não viajou para o exterior. Decidiu não ir à reunião do G-20 em Osaka, no mês passado, alegando que estava muito ocupado lidando com os problemas domésticos do México.

AMLO, como é conhecido, prometeu uma revolução. Até agora, 70% dos mexicanos aprovam sua administração, apesar da instabilidade da economia. Mas qual é a opinião do próprio presidente?

Na segunda-feira, López Obrador conversou com o editor-chefe da Bloomberg, John Micklethwait, em sua primeira entrevista com uma agência de notícias internacional desde que tomou posse em dezembro. O presidente mexicano se orgulha de sua campanha anticorrupção, dos esforços para cortar os gastos no alto escalão do governo e do aumento do salário mínimo e pensões da previdência social.

Durante a conversa, fez referência à história mexicana do século 19 e 20, relatando sangrentas traições e conquistas como se tivessem ocorrido ontem. Combinando com sua austera retórica, López Obrador mora em um apartamento dentro do palácio, tendo aberto a antiga mansão presidencial para o público como um centro cultural. Seu veículo oficial, um simples sedã branco da Volkswagen, fica estacionado no meio de um pátio.

O presidente mexicano minimiza a importância das críticas e mede o sucesso e o fracasso por diferentes critérios.

Sua resposta sobre uma economia em desaceleração e possível recessão? Definir o sucesso por meio do crescimento econômico é um conceito neoliberal ultrapassado que não leva em conta a felicidade e o bem-estar. Ele quer uma melhor distribuição de riqueza.

Aumento da criminalidade? O presidente está focado em atacar as origens do problema com melhor educação, políticas de combate à pobreza e gastos específicos.

Corte da nota de crédito? Ele diz que as agências de classificação de risco estão sendo muito duras. Segundo López Obrador, as agências recompensaram administrações anteriores com classificações mais altas para a petrolífera estatal Pemex, apesar do alto endividamento e queda da produção. Agora, argumenta, rebaixam a nota mesmo com os esforços do governo para pagar as dívidas, erradicar a corrupção e impulsionar a produção.

López Obrador até fez comentários positivos sobre o presidente dos EUA, Donald Trump, que ameaçou sobretaxar os produtos mexicanos. Chamou Trump de aliado e disse que o presidente americano atenuou sua retórica contra os migrantes mexicanos.

A austeridade de López Obrador, que os mercados normalmente adoram, parece estar mal posicionada para o crescimento. Ele diz que cortar gastos é uma questão de princípios: "Não pode haver um governo rico com pessoas pobres". Mas o presidente mexicano cortou o orçamento mais do que qualquer novo governo desde a crise da tequila em 1995, mesmo sob o risco de a economia ter entrado em recessão moderada no segundo trimestre.

"Tenho um sonho que quero transformar em realidade", disse. "Vai chegar o dia, durante meu governo, quando os mexicanos não irão para os EUA em busca de trabalho, porque o mexicano vai ter trabalho e vai ser feliz onde nasceu."

Para que isso aconteça, López Obrador não vai poder descansar tão cedo.

Repórteres da matéria original: Nacha Cattan em Cidade do México, ncattan@bloomberg.net;Eric Martin em Cidade do México, emartin21@bloomberg.net;Daniel Cancel em São Paulo, dcancel@bloomberg.net