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Análise: Brasil vai dar adeus aos juros altos?

Josue Leonel e Marisa Castellani

06/08/2019 14h57

(Bloomberg) -- A ata do Copom divulgada nesta terça-feira destaca o efeito da reforma da Previdência sobre a queda do juro estrutural no Brasil e endossa as apostas do mercado de que a Selic buscará novo pisos históricos até o fim do ano. Mais do que isso: fortalece a visão dos economistas de que a taxa permanecerá em nível baixo por mais tempo e, quando subir, não chegará aos picos já vistos no país.

Ao reduzir os gastos do governo, elevar a poupança pública e incentivar a população a poupar mais, a reforma da Previdência ajuda na redução gradual da taxa de juros estrutural da economia, diz a ata do Copom, ao explicar o corte de meio ponto da Selic, para 6%. "A taxa de juros estrutural é um ponto de referência para a condução da política monetária", segundo o BC.

O economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do BC, estimou, antes do último Copom, que a taxa neutra do país está em 3,5%. Em 2017, uma pesquisa do BC com o mercado mostrou que ess taxa estava em 5%. Para o economista Daniel Weeks, da Garde Asset Management, o número pode estar ainda menor, em 3%, e com tendência de baixa.

A queda da taxa estrutural, ou neutra, sinaliza que o recuo da Selic deve será mais duradouro, diz o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira. Se o BC cortar o juro para 5% até o fim do ano, a taxa poderá ficar neste nível ao longo de 2020.

Apesar de a Selic estar na mínima histórica, a inflação segue abaixo da meta e a economia não reage. "O fato é que a atual taxa de juros não tem sido estimulativa o suficiente para a economia ir a seu potencial e a inflação, à meta", disse o ex-BC Luiz Fernando Figueiredo.

Além mudança na Previdência, outros fatores vêm contribuindo para a redução da taxa neutra, como a reforma trabalhista, o teto de gastos e a redução do uso dos bancos públicos para injetar recursos na economia. "A mudança de regime fiscal reduz a taxa neutra", diz Zeina Latif, da XP Investimentos.

O acirramento da guerra comercial entre EUA e China gera incertezas, mas não necessariamente impede o BC de cortar mais a Selic, pois o câmbio afeta menos a inflação que no passado. "Nos últimos anos já vimos o dólar acima de 4,00 por algumas vezes sem manifestação na inflação", diz Mariana Guarino, da Truxt Investimentos.

O próprio cenário externo, apesar da volatilidade, pode ajudar o Brasil a reduzir juros, pois as taxas estão em queda em todo o mundo devido ao menor crescimento econômico, diz Nathan Blanche, sócio-fundador da Tendências. "É o fim de um ciclo de crescimento mundial, trazido pela globalização."

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