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China decide salvar setor de refino abandonado da Venezuela

Peter Millard e Fabiola Zerpa

08/08/2019 14h39

(Bloomberg) -- Uma empreiteira chinesa concordou em recuperar a abandonada rede de refino da Venezuela para aliviar a escassez de combustível, potencialmente complicando os planos do governo Trump para a mudança de regime no país rico em petróleo.

A Wison Engineering Services, uma empresa de construção e engenharia química com sede em Xangai que está usando o programa de infraestrutura "Belt and Road" da China para se expandir no exterior, fechou um acordo no mês passado para realizar reparos nas principais refinarias da Venezuela em troca de derivados de petróleo, como o diesel, segundo pessoas com conhecimento do contrato.

As sanções financeiras dos Estados Unidos, destinadas a privar o atual regime de receitas, contribuíram para a decisão de reativar um setor de refino doméstico prejudicado há anos pela má administração e falta de investimentos, disse uma das pessoas, que pediu para não ser identificada porque a informação é confidencial.

O contrato espelha os outros acordos do produtor da Opep com as principais companhias petrolíferas russas e chinesas, segundo os quais os pagamentos são feitos em petróleo produzido pela estatal da Venezuela.

Os reparos realizados pela Wison devem durar de seis meses a um ano, segundo outra pessoa. A administração de Nicolás Maduro estava com dificuldades de contornar o bloqueio econômico dos EUA, mesmo antes de o governo americano anunciar mais restrições em 5 de agosto. No mês passado, a petroleira estatal PDVSA estava importando gasolina da Rússia através de Malta para aliviar a escassez do combustível, uma rota lenta e cara para o país.

Abastecimento irregular

O abastecimento irregular de combustível prejudicou a mobilidade em um país onde a falta de alimentos e suprimentos médicos básicos causou uma crise de saúde e levou a uma das maiores migrações em massa dos últimos tempos. A PDVSA tem destinado a maior parte da gasolina disponível para Caracas, onde Maduro é mais vulnerável a grandes protestos.

O governo Trump esperava retirar Maduro rapidamente do poder no começo do ano e criticou a China e a Rússia por apoiarem o que considera um regime criminoso e repressivo.

A Wison não respondeu a um e-mail ou fax pedindo comentários sobre o contrato da refinaria. A PDVSA não respondeu a e-mails e ligações para comentários.

A empresa chinesa não concluiu o contrato fechado em 2012 para reformar a refinaria de Puerto la Cruz. A receita da Wison com projetos na Venezuela caiu 72% no ano passado, sob o impacto do agravamento da crise econômica do país, segundo relatório anual da empresa.

A China e a Rússia têm interesse em impedir o colapso total da indústria petrolífera da Venezuela, já que esta é a única maneira de recuperar as dezenas de bilhões de dólares em empréstimos e investimentos que fizeram na última década. O contrato da Wison também destaca como o país asiático, sedento de petróleo, continua comprometido com a Venezuela, um local estratégico para investimentos estrangeiros.

A indústria de refino da Venezuela, antes uma fornecedora importante para os EUA, com 1,3 milhão de barris diários, enfrenta um declínio gradual devido a roubos, manutenção inadequada e perda de profissionais qualificados, além de ser atingida por uma série de grandes apagões de energia este ano. A PDVSA não tem conseguido atender à demanda doméstica de gasolina nos últimos anos, que historicamente tem girado em torno de 250 mil barris por dia.

--Com a colaboração de Lucia Kassai e Alfred Cang.

Para contatar a editora responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórteres da matéria original: Peter Millard em Rio De Janeiro, pmillard1@bloomberg.net;Fabiola Zerpa em Caracas Office, fzerpa@bloomberg.net

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