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Argentino quer liderar agência nuclear e oferecer lição ao Irã

Jonathan Tirone

09/08/2019 08h24

(Bloomberg) -- O diplomata argentino Rafael Grossi diz que inspetores que monitoram o acordo nuclear do Irã poderiam se beneficiar de uma maior abertura e sugeriu que o programa nuclear de seu país é uma lição para os líderes iranianos.

Como um dos principais candidatos para liderar a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Grossi teria de andar na corda bamba entre monitorar o Irã e controlar outras crises enquanto comanda a agência nominalmente técnica com a geopolítica.

Caso seja eleito pelos países membros, Grossi provavelmente vai enfrentar a pressão dos Estados unidos e de Israel para iniciar uma nova investigação com base em documentos e material nuclear supostamente descobertos em um depósito em Teerã. No mês passado, o presidente dos EUA, Donald Trump, acusou o Irã de "secretamente" enriquecer urânio, algo que inspetores internacionais não relataram.

"A incerteza surge do silêncio", disse Grossi em entrevista, explicando que, em sua opinião, os inspetores da AIEA deveriam se comunicar mais claramente. Ele prometeu um monitoramento "firme, mas justo" e um "diálogo constante" com os governos membros.

A agência está em transição após a morte do diretor-geral Yukiya Amano em julho, apenas algumas semanas depois de inspetores terem dito que o Irã havia ultrapassado os limites de estoque de urânio enriquecido do país, estabelecido no acordo de 2015. Governos europeus, Rússia e China tentam salvar o acordo depois que Trump retirou os EUA do pacto em 2018.

O próximo diretor vai se deparar com alguns dos terrenos mais espinhosos das relações globais. A AIEA ganhou um Prêmio Nobel da Paz por desmascarar informações falsas que levaram à guerra do Iraque em 2003. Depois, a agência se concentrou nas disputas na Síria e na Coreia do Norte, bem como na preocupação internacional com a segurança nuclear após o colapso do reator de Fukushima no Japão em 2011.

Por seu lado, a Argentina passou décadas desenvolvendo um setor nuclear mesmo com as oscilações da economia, levando a um resgate de US$ 56 bilhões do Fundo Monetário Internacional. As atividades incluíram abastecer o reator de pesquisa do Irã com combustível nuclear e treinar cientistas iranianos, no que Grossi chamou de relacionamento próximo, mas complexo.

"Obedecer às regras permitiu o desenvolvimento de nossa indústria", disse Grossi. "Provamos que podemos ser um país de porte médio com energia nuclear e retornos em pesquisa de tecnologia."

Grossi, embaixador da Argentina na AIEA, era o vice de Amano no auge da investigação iraniana, tendo viajado para Teerã como parte de uma equipe que publicou um relatório em novembro de 2011, que detalhava as atividades militares e nucleares do Irã.

Sua candidatura ganhou apoio do Brasil, um aliado e membro do conselho de governadores da agência. O novo-diretor geral deverá ser nomeado em outubro. Outros candidatos, como o diretor interino Cornel Feruta, devem se juntar à corrida no início de setembro.

Para contatar a editora responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

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