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Fantasmas do passado perseguem política argentina

Patrick Gillespie

09/08/2019 13h54

(Bloomberg) -- Quando Alberto Fernández levou sua campanha presidencial na semana passada à cidade de La Matanza, na província de Buenos Aires, estava entrando em um distrito de baixa renda, reduto eleitoral para o principal candidato da oposição na Argentina.

Seus seguidores aplaudiam e seguravam faixas, mas Fernández não era o único foco da multidão. Muitos acenavam bandeiras com a imagem de sua vice na chapa, a ex-presidente Cristina Kirchner, e da mulher que ambos afirmam ser sua mentora política e espiritual: Eva Perón.

Imagens de "Evita" em um comício quase 70 anos depois de sua morte são prova da durabilidade - e flexibilidade - do movimento político que ela e o marido, o presidente Juan Perón, iniciaram na Argentina na década de 1940. Apesar de todo o legado de polarização, uma medida de sua resiliência é que tanto Fernández quanto o presidente Mauricio Macri estão promovendo credenciais peronistas na disputa que, segundo pesquisas, será apertada nas eleições de outubro.

Mas, nas eleições primárias de domingo, em meio à recessão, austeridade e inflação descontrolada, os argentinos estarão numa encruzilhada: continuar na rota de reformas pró-mercado de Macri, por mais dolorosas que sejam, ou retornar ao caminho de políticas mais populistas defendidas por Fernández - com a ampla expectativa de que sua mão será guiada por Kirchner, arriscando uma repetição do colapso econômico provocado pela ex-presidente. Seja qual for o caminho escolhido, o peronismo provavelmente terá peso.

Romantizada por Hollywood e Broadway, a dura realidade na Argentina é que o peronismo polarizou sua terra natal muito antes de Donald Trump entrar na política dos Estados Unidos ou o Brexit ter vencido no Reino Unido. A campanha para a eleição presidencial da Argentina em outubro não é uma exceção.

Líderes peronistas governaram durante cerca de metade das últimas sete décadas. O movimento sobreviveu a anos de violentos confrontos e intervenções militares entre 1950 e 1970. Seja durante a administração pró-empresas de Carlos Menem ou dos governos nacionalistas de Néstor e Cristina Kirchner, as alegações de corrupção têm perseguido as presidências peronistas, enquanto o desempenho econômico não conseguiu corresponder às expectativas.

"Em geral, foi um desastre", disse Marcos Buscaglia, economista-chefe da consultoria Alberdi Partners, de Buenos Aires. "Uma economia fechada, desequilíbrios fiscais e monetários, sindicatos fortes, alta regulamentação e corrupção - isso tem muito a ver com o peronismo".

Mas cerca de um terço dos eleitores argentinos pensam o contrário. E as pesquisas mostram que certamente votarão na chapa Fernández-Kirchner. Eleitores como Noelia Irusta, professora de escola primária e peronista confessa, que compareceu ao comício em La Matanza. Ela apoia Kirchner-Fernández "para reativar a indústria" da Argentina. Para ela, o peronismo é um "sentimento" que dá "esperança ao povo e aos trabalhadores".

O peronismo pertence historicamente à esquerda nacionalista: favorece operários em detrimento dos donos de empresas; os sindicatos têm uma influência desmedida; e sua retórica está enraizada em protestos, antielitismo e centrada na indústria nacional. Mas, desde então, o peronismo navegou por um caminho político tortuoso que permite que seja reivindicado por quase todos.

Apesar das ideologias opostas, as duas principais chapas têm peronistas proeminentes. Macri escolheu como vice-presidente o senador Miguel Pichetto, um peronista moderado, porém socialmente mais conservador. Kirchner, líder de esquerda com um histórico de medidas populistas, concorre com Fernández, outro peronista com tendências mais centristas do que ela. Representantes peronistas, deste modo, têm lugar quase garantido no próximo governo, seja qual for o resultado.

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