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Passado da Nova Zelândia pode dar pistas sobre futuro do Brexit

Eddie Spence

12/08/2019 15h15

(Bloomberg) -- Do outro lado do mundo pode haver pistas sobre como o Reino Unido poderia administrar a saída da União Europeia sem um acordo.

O país enfrentaria um impacto sem precedentes no lado da oferta da economia, segundo o presidente do Banco da Inglaterra, Mark Carney, com barreiras comerciais imediatas que afetariam as exportações. O único caso histórico relevante mencionado por Carney ocorreu com a Nova Zelândia, em 1973.

Foi quando o Reino Unido passou a fazer parte da Comunidade Econômica Europeia, o que significou abandonar seu parceiro da Commonwealth para favorecer os vizinhos europeus. Nas décadas anteriores, a Nova Zelândia prosperava com o envio de mais da metade de seus produtos para o Reino Unido.

"Foi um pouco como estar na posição de um adolescente que ouviu: 'Filho, agora você tem 18 anos. É hora de partir e se virar sozinho'", disse o neozelandês John Llewellyn, ex-funcionário da OCDE e ex-economista do Lehman Brothers.

Depois disso, vieram duas décadas de crescimento anêmico. Os ganhos reais do PIB per capita representaram em média apenas uma fração dos anos anteriores. O país foi forçado a embarcar em um doloroso programa de reestruturação, cortando subsídios e privatizando muitos ativos do estado, com concessionárias de energia, aeroportos e até florestas. Segundo Llewellyn, as reformas de Margaret Thatcher da década de 1980 pareciam "bastante brandas em comparação".

"Eles reformularam completamente a lei trabalhista e acabaram com muita proteção social", disse. "A estabilidade no emprego foi eliminada. O desemprego na minha juventude nunca passou de 1% e depois subiu para mais de 10%. Foi dramático."

A Nova Zelândia provavelmente estava mais preparada do que o Reino Unido atualmente. Segundo o economista neozelandês Brian Easton, os preparativos começaram em 1961, quando a o Reino Unido começou a negociar sua entrada na CEE.

"Primeiro, foi o esforço de diversificação em relação à alta dependência do mercado britânico, tanto em encontrar novas commodities de exportação quanto novos mercados de exportação", disse. "Um elemento importante disso foi a criação de um acordo de livre comércio com a Austrália."

Outra diferença significativa foi a capacidade da Nova Zelândia de negociar uma redução gradual de suas exportações, em vez do impacto imediato implícito de um Brexit sem acordo.

"Perdemos algum acesso ao mercado, mas não tanto quanto se temia em 1961 e houve uma transição de cinco anos", disse Easton.

O pequeno país insular foi forçado a avaliar seu próprio lugar em um mundo dominado por superpotências econômicas. Llewellyn disse que o senso de importância do Reino Unido pode tornar a queda ainda mais dolorosa.

"Os neozelandeses não têm delírios de grandeza", disse. O país "não pode, é muito pequeno."

--Com a colaboração de Matthew Brockett.

Para contatar a editora responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

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