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Pequenos comerciantes da Argentina tentam se equilibrar no caos

Jonathan Gilbert, Jorgelina do Rosario e Patrick Gillespie

13/08/2019 12h27

(Bloomberg) -- Depois de dois defaults da dívida soberana neste século, pequenos comerciantes na Argentina sabem navegar muito bem em tempos de crise. Mas mesmo eles foram abalados pela nova turbulência.

A desvalorização histórica do peso argentino - em forte queda pelo segundo dia, com baixa acumulada de 22% desde sexta-feira - se traduziu em perdas imediatas para alguns donos de lojas. Outros faziam cálculos para saber o quanto pagar por seus ingredientes básicos. Com as eleições presidenciais programadas para daqui a dez semanas, todos ficaram imaginando o quanto pode piorar.

"A Argentina é uma gangorra que sobe e desce", disse Ruben Haleblian, vendedor de uma loja de eletrônicos em Buenos Aires.

O peso em queda significa que mercadorias atreladas ao dólar sobem de preço. Com a moeda em queda livre, Haleblian foi instruído pelo dono da loja a precificar todos os produtos, que são importados, a 62 pesos por dólar. O resultado: todas as mercadorias, de um cartão de memória SD a um celular Samsung, ficaram 40% mais caras - e os clientes foram embora da loja assim que souberam o preço.

'Fora de controle'

Outro exemplo é o de Pablo Ricatti: sua empresa faz pães para hambúrgueres e cachorros-quentes na província de Buenos Aires, mas o colapso cambial significa que agora ele não tem como saber o preço justo da farinha. Depois que os mercados fecharam, Ricatti descobriu que seu fornecedor havia aumentado o preço em 59% na sexta-feira.

"Não vou aceitar esse preço, é muito mais do que a desvalorização do peso", disse Ricatti, que enfrenta o próprio desafio de decidir o que cobrar dos clientes. "Temos suprimentos suficientes para vender para as próximas duas semanas e podemos manter nossos preços por enquanto", disse. "Mas, se o peso continuar fora de controle, vamos aumentar os preços."

Os argentinos já enfrentaram crises cambiais antes, como em agosto do ano passado, quando uma depreciação de 25% em um único dia levou o governo a aumentar o tamanho de um empréstimo recorde com o Fundo Monetário Internacional. Em 2015, quando o presidente Mauricio Macri eliminou o controle de capitais, a moeda se desvalorizou 30%. Esse tipo de oscilação torna mais difícil para os argentinos conduzirem seus negócios com normalidade.

Eleições

A onda vendedora da segunda-feira fez parte de uma ampla fuga de ativos da Argentina depois que o candidato da oposição Alberto Fernández venceu Macri nas eleições primárias do fim de semana, consideradas um prenúncio para as eleições presidenciais de outubro. Os rumores sobre o tipo de política populista para a economia que poderia ser implementado por Fernández e, especialmente, por sua vice na chapa, a ex-presidente Cristina Kirchner, alarmaram os investidores.

No entanto, embora o resultado tenha surpreendido institutos de pesquisa e investidores, os números refletiram o descontentamento da população em relação ao comando da Argentina em meio à recessão, austeridade e inflação acima de 50%.

O resultado é uma desconexão entre a preferência do eleitorado por um governo potencialmente protecionista e intervencionista para ajudar a tirá-los das dificuldades econômicas e o desejo dos investidores por uma continuidade das políticas pró-mercado de Macri para recuperar a confiança dos mercados internacionais. Essa divergência pode agravar a crise econômica no curto prazo.

"O movimento repentino da moeda não está apenas prejudicando a economia hoje, mas talvez 2020 não traga a recuperação que esperávamos", disse Jimena Blanco, diretora de pesquisa da Verisk Maplecroft, em Buenos Aires. "As decisões de investimento serão suspensas até o segundo semestre do ano que vem."

--Com a colaboração de Carolina Millan.

Para contatar a editora responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórteres da matéria original: Jonathan Gilbert em Buenos Aires, jgilbert63@bloomberg.net;Jorgelina do Rosario em Buenos Aires, jdorosario@bloomberg.net;Patrick Gillespie em Buenos Aires, pgillespie29@bloomberg.net

Economia