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Para derreter ou colecionar? Sinos roubados intrigam a França

Geraldine Amiel

22/08/2019 15h36

(Bloomberg) -- Sinos centenários foram roubados de torres de igrejas em três pacatas aldeias provençais, no sudeste da França, em julho e início de agosto. Nem a polícia entende.

"Não temos nenhuma pista, mas acreditamos que ladrões de metal ou colecionadores de sinos podem ter feito isso", disse Pierre Arpaia, vice-promotor de Draguignan e responsável pelo caso.

As igrejas em Esparron-de-Pallières, Brue-Auriac e Ginasservis, no distrito de Var, ficam longe do centro, permitindo que os ladrões levassem as pesadas campânulas impunemente. O sino de Brue-Auriac foi produzido em 1847 e um dos dois sinos roubados em Ginasservis era de 1737, anterior à Revolução Francesa.

Meses depois de um incêndio destruir o telhado da Catedral de Notre-Dame de Paris, os roubos dos sinos realçam a difícil tarefa da França de preservar grandes e pequenos edifícios religiosos diante do orçamento menor e da baixa frequência de fiéis (uma das menores taxas do mundo).

Com a demanda por metais e a tenacidade de colecionadores de antiguidades, milhares de igrejas espalhadas por aldeias e cidades francesas se tornaram alvos fáceis para criminosos.

Derretimento O prefeito André Rousselet acha que o sino da igreja de Brue-Auriac foi derretido para venda do metal. Em entrevista à Agência France-Presse, ele afirmou que o metal derretido pode ter sido comprado por cerca de 500 euros (US$ 554).

Christian Ghinamo, vice-prefeito de Esparron-de-Pallières, duvida que o metal tenha sido a motivação. "Os sinos que foram roubados são relativamente leves, ou seja, contêm pouco metal", disse ele em entrevista.

Outro argumento que enfraquece a teoria dos ladrões de metal é a queda nos preços de estanho e cobre. Os sinos eram de bronze, que é uma liga desses dois metais.

Nos anos anteriores à crise financeira em 2008, roubos de metais eram frequentes, uma vez que a enorme demanda da China elevou as cotações dos metais. Calhas residenciais e telhados de igrejas eram arrancados em todo o Reino Unido, pelo chumbo e zinco. A malha ferroviária da França enfrentava roubos de fiação de cobre.

"No período que antecedeu a crise, quando os preços dos metais dispararam, havia roubo de metais em todo e qualquer lugar", lembra Caroline Bain, economista-chefe para commodities da Capital Economics em Londres. Com a desaceleração da economia global, a tendência sumiu, explicou ela.

Na Primeira Guerra Mundial, os sinos de igrejas eram fonte natural de metal para munição. Muitos foram derretidos e transformados em balas. Mas agora não há escassez de metal e o processo de extração de estanho e cobre a partir do bronze é caro e complexo. "Não há justificativa econômica para fazer isso só pelo metal", acredita Frédéric Rota, fabricante de sinos da Fonderie de Cloches Obertino Charles, no leste da França.Colecionadores Para Rota, os sinos provavelmente estão sendo vendidos para colecionadores. Sua empresa familiar, fundada em 1834, é especializada em sinos de tamanho médio para capelas e pescoços bovinos.

Ainda assim, é um mercado pequeno porque, em sua maioria, "os sinos eram abençoados pelo bispo local antes de serem instalados, tornando-se inalienáveis", explica Nicolas Gueury, presidente do Conservatório Europeu para Torres de Sinos e Relógios (CECH). "É ilegal vendê-los."

Sinos forjados antes da Revolução Francesa (como um dos que foram roubados recentemente) são raros. Em 1793, revolucionários deram ordens para destruição de quase 100.000 sinos em todo o país e os que restaram são preciosos, segundo Gueury.

"Mas é difícil vendê-los", acrescentou ele. "As pessoas estão cientes das restrições, então acho que quem fez isso foram vândalos que não sabem sobre os preços baixos dos metais."

--Com a colaboração de Eddie van Der Walt.