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Empréstimo de US$ 56 bi do FMI para Argentina na berlinda

Carolina Millan e Patrick Gillespie

26/08/2019 12h23

(Bloomberg) -- O empréstimo recorde do Fundo Monetário Internacional concedido para a Argentina no ano passado deveria ter virado a página de uma história conturbada. No entanto, parece ser mais um caso de déjà vu.

Menos de duas décadas atrás, a Argentina abandonou um programa do FMI, deixou de pagar suas dívidas e mergulhou em uma depressão econômica. Representantes do FMI chegaram a Buenos Aires no fim de semana para avaliar o atual pacote de resgate de US$ 56 bilhões do país e decidir se vão continuar a liberar recursos, mas alguns dos mesmos sinais de alerta começam a piscar.

O presidente Mauricio Macri acaba de ser trucidado pela oposição nas eleições primárias, depois que seu programa apoiado pelo FMI - que tem como base a austeridade orçamentária e as taxas de juros mais altas do mundo - não conseguiu tirar a economia da recessão.

A derrota de Macri provocou uma onda de aversão ao risco impressionante até mesmo para os padrões de volatilidade da Argentina. O peso se desvalorizou 20% em uma semana, e os rendimentos dos títulos do governo subiram, elevando o risco implícito de default acima de 80%.

Os representantes do FMI, que chegaram à Argentina no sábado e imediatamente iniciaram reuniões com os formuladores de políticas, enfrentam uma escolha difícil, com ecos indesejados de duas décadas atrás: arriscar tornar a turbulência ainda pior segurando uma parcela de US$ 5,3 bilhões no próximo mês ou liberá-la, embora o futuro do programa pareça altamente incerto.

O FMI também terá que buscar detalhes dos planos econômicos do líder da oposição Alberto Fernández -- que provavelmente deve conduzir um governo menos favorável ao mercado. Embora as eleições presidenciais ainda estejam a dois meses de distância, a desvantagem de 15 pontos de Macri levou analistas a considerá-lo carta fora do baralho.

"O FMI investiu muito - não apenas dinheiro, mas prestígio", disse Hector Torres, ex-diretor executivo do Fundo que representou os países sul-americanos.

"O fato de o acordo não ter um bom desempenho no momento é um constrangimento", disse. E a parcela de setembro será "uma decisão difícil".

Até este mês, a Argentina estava a caminho de cumprir a meta do FMI de equilibrar o orçamento deste ano (excluindo pagamentos de juros). O Fundo pode citar o desempenho no primeiro semestre como base para realizar o pagamento do próximo mês, de acordo com Priscila Robledo, economista para a América Latina da Continuum Economics, em Nova York.

No entanto, desde o resultado das primárias, o governo Macri começou a relaxar as políticas de austeridade, com o congelamento dos preços dos combustíveis e aumento dos subsídios. As medidas tentam proteger os argentinos de renda mais baixa da desvalorização do peso, que ameaça elevar a inflação para níveis ainda mais altos.

--Com a colaboração de Daniel Cancel e Sarah McGregor.

Para contatar a editora responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórteres da matéria original: Carolina Millan em Buenos Aires, cmillanronch@bloomberg.net;Patrick Gillespie em Buenos Aires, pgillespie29@bloomberg.net