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Defesa do garimpo reflete política de Bolsonaro para Amazônia

Simone Iglesias e Bruce Douglas

28/08/2019 10h31

(Bloomberg) -- Entre as dezenas de milhares de brasileiros que enfrentaram duras condições de trabalho garimpando na mina de ouro de Serra Pelada na década de 1980, estava Percy Geraldo Bolsonaro, pai do presidente Jair Bolsonaro.

O garimpo como forma de garantir fortuna, senão ao menos sobrevivência, é um aspecto da psique nacional que ressoa profundamente no presidente. "O garimpo é um vício; está no sangue", disse Bolsonaro a mineiros da região em vídeo postado no YouTube em julho de 2018, ainda durante a campanha eleitoral. "Devemos tudo o que temos a pessoas com espírito como o de vocês."

O presidente tem sido alvo de críticas no cenário internacional, acusado de ter facilitado as queimadas que agora assolam a Amazônia, com protestos contra suas políticas ambientais tanto no país quanto no exterior. Celebridades como o ator Leonardo DiCaprio e a modelo Gisele Bündchen também protestaram contra as políticas de Bolsonaro. Mas a sua formação e início de carreira sugerem que não está disposto a recuar.

Um exemplo foi sua decisão inicial de rejeitar uma ajuda de 20 milhões de euros dos membros do G-7 para o combate dos incêndios, acirrando a disputa com o presidente da França, Emmanuel Macron, que classificou a situação da Amazônia como "crise internacional".

Foi longe demais

Há consenso dentro do governo Bolsonaro que Macron foi longe demais com suas críticas sobre a Amazônia, disseram três pessoas ligadas ao gabinete presidencial, que pediram anonimato ao comentar estratégias políticas. Existe, no entanto, um desconforto geral com a forma de Bolsonaro expressar essas críticas. Segundo essas autoridades, os atuais focos de incêndio na Amazônia não são significativamente piores que os das estações secas anteriores e este deveria ser o foco central do discurso do governo, e ataques que escalaram para críticas pessoais.

Macron deve "retirar os insultos que fez à minha pessoa" antes de qualquer discussão sobre a ajuda à Amazônia, disse Bolsonaro a repórteres na terça-feira, acrescentando que o dinheiro é uma ameaça à soberania do Brasil.

Além do carinho pelas façanhas do pai na mineração, os anos de formação de Bolsonaro no exército moldaram grande parte da atitude do presidente em relação à Amazônia. Nos séculos XVII e XVIII, o exército português estabeleceu fortes na Amazônia que marcaram a fundação de cidades como Belém, São Luís e Manaus, enquanto no século XIX, o Marechal Cândido Rondon liderou missões militares para fazer contato com tribos amazônicas, dando seu nome a um dos estados atualmente devastados pelos incêndios: Rondônia. Projetos para a modernização da Amazônia decolaram de fato durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985.

Esse legado militar se traduz na convicção de Bolsonaro de que a região é um ativo brasileiro e não global; que seus recursos devem ser utilizados e não deixados no solo; e que qualquer interesse estrangeiro deriva de um desejo de controlar a riqueza mineral da Amazônia em vez de preservar seu ecossistema.

As políticas de Bolsonaro permaneceram notavelmente consistentes ao longo dos anos, mas estão cada vez mais fora de sintonia com a opinião global: à medida que o impacto da mudança climática se torna mais tangível, a Amazônia ganha mais importância na agenda política mundial. O risco para Bolsonaro é agravar a situação econômica com sua intransigência aos apelos globais em relação ao combate à mudança climática.

França e Irlanda ameaçaram bloquear o recente acordo comercial firmado entre a União Europeia e o Mercosul, que poderá injetar US$ 90 bilhões nos próximos 15 anos na economia brasileira. A Finlândia, que exerce a presidência rotativa da UE, propôs banir as importações brasileiras de carne bovina e colocar o assunto na agenda para uma reunião dos ministros das Finanças do bloco em setembro. O Brasil exportou US$ 13,6 bilhões em produtos agrícolas para a UE no ano passado.

"A França e a Irlanda exageraram ao dizer que poderiam romper o acordo UE-Mercosul", disse Tereza Cristina, ministra da Agricultura. "O Brasil está preocupado com os incêndios que ocorrem todos os anos. É oportunismo dizer que isso tem algo a ver com produtos brasileiros."

Ainda assim, há diferenças de opinião dentro do governo sobre os ataques agressivos e pessoais de Bolsonaro a Macron, de acordo com pessoas a par do assunto. Alguns argumentam que ele perdeu uma oportunidade de isolar diplomaticamente o presidente francês, dada a relutância da Alemanha e Reino Unido em vincular acordos comerciais à política ambiental.

Outro assessor da presidência disse que os moderados do governo desistiram de orientar Bolsonaro em maneiras diplomáticas ou mesmo etiqueta básica, devido às suas reações explosivas. Os ministros agora tomam cuidado para evitar quaisquer declarações que contradigam o presidente.