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Opinião: Brasil tem o ponto ideal para compra de ações

Matthew Winkler

29/08/2019 10h31

(Bloomberg) -- Quando o Ibovespa atingiu nível recorde em 10 de julho, foi um marco que poucos previram. Um retorno de 26% em relação ao ano anterior colocou o país na liderança de mercados emergentes, superando outros 32 que, juntos, registraram perda de 7%. O desempenho foi ainda mais impressionante considerando o fraco crescimento econômico do Brasil com um ritmo anual de 0,9%.

Desafiando os céticos, o Brasil aproveita uma rara vantagem, beneficiando-se de taxas de juros favoráveis sem precedentes, inflação baixa e da guerra comercial entre Estados Unidos e China. Enquanto grande parte do mundo está focada nos vários focos de incêndio na Amazônia e na resposta do presidente Jair Bolsonaro, a maior economia da América Latina e seus investidores historicamente desnutridos estão em um ponto de inflexão.

O crescente apetite por ações é impulsionado pela menor taxa de juros dos tempos modernos. Investidores estão famintos por algo mais frutífero do que os retornos reduzidos das dívidas, já que os rendimentos de títulos globais tendem a ser mais baixos - ou cada vez mais negativos -, e quando o governo ganha apoio para realizar a reforma da Previdência, antes impopular, o que aumentará a idade da aposentadoria para muitos brasileiros e reduzirá as obrigações. A reforma deve gerar uma economia de mais de R$ 900 bilhões ao longo de uma década.

"Os fundos de pensão no Brasil", que habitualmente buscavam cupons no mercado de títulos porque as taxas eram muito mais altas, "colocarão mais de US$ 20 bilhões no mercado de ações nos próximos três anos", algo que "nunca aconteceu antes", disse João Luiz Braga. Ele deve saber. Seu fundo XP Long Biased, de US$ 550 milhões, teve retorno de 279% nos últimos cinco anos, esmagando os 60% do Ibovespa. O mercado de títulos nesse período mostrou retorno de 33%, segundo o índice Bloomberg Barclays Brazil Total Return.

A mudança no comportamento dos investidores equivale a "uma mudança de paradigma", disse Braga, 39 anos, durante a conferência "Buy Side", no escritório da Bloomberg em São Paulo, no início do mês. O bônus das baixas taxas de juros em todo o mundo durante a recuperação anêmica da recessão de 2015-2016 no Brasil "é um cenário muito, muito, muito bom", pois os juros no país provavelmente permanecerão "baixos por muito tempo", disse.

Quando o Banco Central reduziu a Selic para 6% em julho, a taxa básica do país caiu para o nível mais baixo desde que os dados começaram a ser coletados em 1999 e bem abaixo de qualquer taxa nas décadas anteriores, segundo dados compilados pela Bloomberg. O país de quase 211 milhões de habitantes melhorou seu perfil entre investidores, pois seu custo de financiamento é o mais baixo já registrado e seu crescimento econômico deve superar o do México, segunda maior economia da América Latina, e o da Argentina, terceira maior, com expansão do PIB de 2,1% em 2020 e de 2,5% em 2021, segundo 35 economistas consultados pela Bloomberg.

Embora os mesmos economistas esperem que o PIB inicialmente cresça mais no Chile, Colômbia e Peru, a previsão é de que o Brasil mostre a maior aceleração até 2021. Além disso, a inflação no país permanecerá abaixo de 4% até 2021, depois de cair mais da metade, para 3,66%, entre 2016 e 2018, ampliando a vantagem de seu menor custo de vida em comparação com o restante da América Latina para 5,3 pontos percentuais, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Como os incêndios na Amazônia demonstram, no entanto, a situação política no Brasil - e os próprios incêndios - pode mudar a trajetória da economia. Bolsonaro, no entanto, não mostrou nenhuma inclinação de abandonar suas políticas pró-desenvolvimento.

Bolsonaro recebeu elogios do presidente dos EUA, Donald Trump, cuja guerra comercial com a China trabalha a favor de Bolsonaro. As exportações do Brasil para a China aumentaram 20% em abril em relação ao mesmo mês de 2018, enquanto as vendas dos EUA para a China caíram 26%, segundo dados coletados pela Bloomberg. Isso faz parte de uma tendência de longo prazo. Durante os cinco anos entre 2013 e 2018, as importações anuais da China de produtos do Brasil aumentaram 43%, para US$ 76,9 bilhões, enquanto as importações da China dos EUA subiram 6%, para US$ 156 bilhões, segundo compilados pela Bloomberg. Ao mesmo tempo, o comércio do Brasil com os EUA caiu de US$ 66 bilhões para US$ 62 bilhões.

Combine todos esses fatores, e a força relativa do Brasil ajuda a explicar por que suas empresas de capital aberto são as que mais contribuem para o índice MSCI de Mercados Emergentes nos últimos 12 meses e por que os títulos de dívidas emitidos pelo Brasil e por suas empresas estão em segundo lugar depois da China, com retorno de 19% entre 86 mercados emergentes, segundo dados coletados pela Bloomberg. A confiança dos investidores globais no Brasil é a mais alta desde 2014, com US$ 29 bilhões investidos em títulos brasileiros de um total de US$ 3,4 trilhões de fundos negociados em bolsa nos EUA. Embora o valor seja relativamente pequeno, o número de ações detidas por esses ETFs aumentou 26 vezes entre 2015 e abril, e o rali provavelmente será retomado quando a reforma da Previdência virar lei.

Será apenas o mais recente dado em uma preferência cada vez maior por ações no Brasil.

"A indústria de ações brasileira é na verdade nova aqui", disse Braga. "Sigo essa vantagem."

Matthew A. Winkler é colunista do Bloomberg Opinion e editor-chefe emérito da Bloomberg News.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

--Com a colaboração de Shin Pei.

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