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Esquiadores encontram lama em vez de neve em estâncias do Chile

Laura Millan Lombrana e Sebastian Boyd

30/08/2019 12h00

(Bloomberg) -- Esquiadores tiveram de se esquivar de rochas, grama e lama enquanto desciam no domingo pelas encostas da estação de esqui El Colorado, no Chile. E essas eram as trilhas boas.

A seca que já dura uma década se agravou este ano nas montanhas dos Andes sobre Santiago, o que limitou as nevascas a apenas alguns dias e representou um duro golpe para um setor que atraiu 1,4 milhão de visitantes no ano passado.

Era quase alta temporada, e os restaurantes de El Colorado, uma das cinco estâncias na região central do Chile, estavam praticamente vazios. Das poucas pessoas presentes, muitas haviam reservado suas entradas no início da temporada e perderiam dinheiro se não fossem agora. Canhões de neve estacionados ao longo das laterais das poucas encostas ainda abertas eram evidência dos esforços de El Colorado para salvar a temporada, enquanto condores andinos acrescentavam um toque mórbido, circulando pelas trilhas quase vazias.

"Tem sido realmente deprimente", disse Natalia Contreras, instrutora de esqui que recentemente desistiu de trabalhar na estância Valle Nevado e foi para o sul do país. "Nevou apenas duas vezes, só um pouco, e derreteu rapidamente por causa das altas temperaturas."

A falta de neve foi uma decepção para as dezenas de milhares de brasileiros que voam todos os anos para o sul do continente para esquiar, sem mencionar os ricos chilenos para quem o esqui é parte integrante do inverno.

Impacto

A pior temporada do Chile dos últimos anos faz parte de um problema maior. Estâncias de esqui dos Alpes na Europa até Sierra Nevada na Califórnia foram atingidas por condições climáticas semelhantes nos últimos anos, devido ao aumento das temperaturas globais e mudanças dos padrões tradicionais de chuva e nevascas. O setor tenta se adaptar usando a imaginação, recorrendo às chamadas fazendas de neve na França ou à construção de estâncias em maior altitude nos EUA e Canadá.

Estâncias no Chile investiram juntas US$ 24 milhões este ano em nova infraestrutura, que incluem canhões de neve. Mas pode não ser suficiente. O deserto de Atacama, o mais seco do mundo, está se expandindo para o sul devido ao menor volume de chuvas, secando rios e ressecando os ricos campos de cultivo de frutas nos arredores de Santiago.

Autoridades já declararam estado de emergência devido à seca em quatro regiões no centro do Chile, que abriga mais de dois terços da população do país.

O volume de chuvas na capital Santiago representa cerca de um quarto da média do século passado, segundo a agência de meteorologia. De fato, a cidade não registra o volume médio de chuvas há mais de uma década.

As estâncias de esqui nos Andes, a menos de duas horas de carro da cidade, registraram cerca de 180 centímetros de neve, segundo a associação Aceski. Grande parte dessa neve derreteu rapidamente, deixando apenas um ou dois centímetros na maioria das pistas, segundo os sites das estâncias.

Experiência frustrante

Espera-se que esta temporada dure entre 90 e 95 dias, em comparação com 101 dias no ano passado, e atraia cerca de 900.000 esquiadores, de acordo com o gerente-geral da Aceski, Francisco Sotomayor. Muitos vão se decepcionar.

"É frustrante, porque a área esquiável foi reduzida ao mínimo", disse Paul Oliger, um esquiador de 53 anos, dono de uma casa em uma das estâncias há quase três décadas. "Mesmo nós, fãs de esqui, não estamos motivados a subir nessas condições."

--Com a colaboração de Javiera Baeza.

Para contatar a editora responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórteres da matéria original: Laura Millan Lombrana em Santiago, lmillan4@bloomberg.net;Sebastian Boyd em Santiago, sboyd9@bloomberg.net