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Sem alarde, países anti-Maduro reatam com ele

Samy Adghirni

30/08/2019 17h56

(Bloomberg) -- Em março, quando o líder da oposição venezuelana, Juan Guaidó, retornou a Caracas de uma turnê triunfante no exterior, ganhando reconhecimento como líder legítimo no lugar do presidente Nicolás Maduro, o embaixador alemão, juntamente com alguns outros diplomatas, estava no aeroporto para dar as boas-vindas em uma demonstração pública de apoio.

Não demorou muito para o governo de Maduro retirar as credenciais do embaixador Daniel Kriener e expulsá-lo. Kriener partiu para Berlim, com a política de seu governo intacta e a cabeça erguida.

Mas, em julho, em meio ao estancamento do esforço liderado pelos EUA para derrubar Maduro, o embaixador alemão voltou a Caracas e aos seus deveres anteriores: lidar com o governo de Maduro. Há duas semanas, Kriener e colegas europeus participaram de uma reunião com o ministro das Relações Exteriores de Maduro, Jorge Arreaza. Recentemente, Arreaza fez visitas oficiais a Espanha e Portugal, ambos alinhados a Guaidó.

O jujitsu diplomático é um reflexo de uma realidade que se torna cada vez mais evidente: Maduro continua no comando e orientando os rumos do país, apesar de Guaidó ser reconhecido por mais de 50 governos.

Essa situação inusitada tem gerado confusão. No início do ano, diplomatas com base em Caracas atualizaram suas listas de contatos, substituindo os associados a Maduro por pessoas ligadas a Guaidó. Muitos adidos militares foram retirados para evitar lidar com os generais de Maduro. Um país europeu convidou apenas funcionários de Guaidó para a comemoração de sua festa nacional. Para evitar atrito, um país latino-americano cancelou sua celebração anual. Muitos dos diplomatas entrevistados para esta reportagem falaram sob a condição de que seu país permanecesse anônimo para evitar irritar os dois lados da disputa.

A situação criou preocupações com a segurança, uma vez que os assessores de Guaidó estão sob constante ameaça de prisão. Também levantou questões mais mundanas, como a obtenção de placas de carro diplomáticas.

Há alguns meses, dois funcionários de um dos governos mais agressivos contra Maduro não puderam enviar suas mudanças de volta ao país de origem porque autoridades se recusaram a carimbar a documentação para liberar as caixas no porto. Um funcionário da alfândega pareceu divertir-se ao provocar os funcionários: "Por que vocês não pedem a Guaidó que libere sua mudança?" O governo dos funcionários enviou uma carta solicitando a aprovação da alfândega, que acabou concedida.

Um funcionário latino-americano que não está autorizado a discutir o assunto publicamente disse que seu país cometeu um erro ao reconhecer Guaidó tão rapidamente. Agora, disse, diplomatas precisam fazer "coisas malucas" que não se aprende nos livros.

O que está ficando claro é que o reconhecimento de Guaidó continuará numa espécie de nível simbólico. Mas, apesar das evidências de que as duras sanções dos EUA sobre a Venezuela têm causado um impacto cada vez maior em Maduro e seus associados, a condução do governo tem ficado a cargo dos chavistas.

A Espanha, por exemplo, abriga um colega importante de Guaidó, Leopoldo López, que mora na residência oficial espanhola em Caracas há meses. Mesmo assim, as relações do país com Maduro permanecem inalteradas em relação ao ano passado.

O primeiro-ministro de Curaçao, uma ilha do Caribe controlada pelo governo da Holanda, pró-Guaidó, recebeu recentemente Manuel Quevedo, presidente da petroleira PDVSA. Eles discutiram o plano da estatal de renovar um acordo para operar uma refinaria na ilha.

Credenciais diplomáticas

Embora o Brasil tenha reconhecido plenamente a representante de Guaidó como embaixadora em Brasília, o país solicitou e obteve do governo Maduro a renovação das credenciais diplomáticas de algumas autoridades.

Em comunicado, o Itamaraty disse que a Venezuela é um caso único no qual coexistem um governo constitucional legítimo e uma ditadura ilegítima. O ministério expressou esperança de que todas as partes continuem a cumprir a Convenção de Viena, que garante imunidade e privilégios para diplomatas estrangeiros.

Maduro está sob crescente pressão internacional desde que assumiu o segundo mandato no início de janeiro, após eleições amplamente condenadas por fraude. As tensões aumentaram em 23 de janeiro, quando Guaidó, então presidente da Assembleia Nacional, se declarou presidente. Guaidó e seus aliados prometeram restaurar o estado de direito em um país devastado pela hiperinflação, fome e corrupção desenfreada.

Mas a aposta em Guaidó acabou evidenciando os limites da pressão diplomática, segundo Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais na FGV em São Paulo. "Foi tudo uma grande e arriscada aposta", disse. "Os EUA levaram seus aliados a reconhecer como presidente alguém que nunca teve poder de fato."

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net