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Alta do preço do pão pode ser prenúncio das mudanças climáticas

Jonathan Tirone

26/09/2019 15h18

(Bloomberg) -- As secas induzidas pelas mudanças climáticas ameaçam afetar mais da metade dos campos de trigo do mundo, e cientistas alertam sobre possíveis turbulências dos mercados e instabilidade política.

Essa é a conclusão de uma nova pesquisa revisada por cientistas e publicada na revista Science Advances. O grão, que responde por 20% das calorias diárias da humanidade, será mais difícil de cultivar por causa da escassez de água mais severa e prolongada. As projeções do estudo mostram que 60% das áreas atuais de cultivo de trigo podem enfrentar secas até o final do século, caso as mudanças climáticas não forem mitigadas, em comparação com 15% hoje.

"Esses acontecimentos podem aumentar a insegurança alimentar e, consequentemente, a instabilidade política e a migração", escreveram pesquisadores de organizações como o Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados, na Áustria. Mesmo mantendo as temperaturas crescentes da Terra dentro dos limites prescritos pelo Acordo de Paris, a área de cultivo sob ameaça pode dobrar, escreveram.

As descobertas destacam como a mudança dos padrões climáticos vai interferir na sorte de agricultores em todo o mundo, enriquecendo alguns e diminuindo a produtividade para outros. A seca prolongada "fritou" os grãos no leste da Austrália este ano, obrigando o país, geralmente o maior exportador de trigo do hemisfério sul, a fazer uma rara importação de trigo canadense.

O aquecimento global exigirá que as economias encontrem novas maneiras de se alimentar, com o cultivo migrando para áreas com condições mais adequadas, disseram os pesquisadores.

"Se apenas um país ou região experimentar uma seca, há menos impacto", escreveram os principais autores Miroslav Trnka, professor da Universidade Mendel, na República Tcheca, e Song Feng, da Universidade do Arkansas. "Se várias regiões são afetadas simultaneamente, isso pode afetar a produção global e os preços dos alimentos, além de levar à insegurança alimentar".

Os principais exportadores de trigo do mundo na União Europeia, Rússia e Estados Unidos podem enfrentar grave escassez de água, enquanto agricultores na América do Sul seriam apenas "marginalmente afetados", segundo o estudo.

O trigo é diferente de outras culturas de grãos, porque geralmente não é irrigado, mas depende dos padrões naturais de chuva para crescer. Os pesquisadores usaram mais de duas dúzias de modelos climáticos e hidrológicos para chegar às conclusões.

O estudo "contribui substancialmente para a área negligenciada dos extremos climáticos na agricultura, pois revela dados sobre a probabilidade de choques causados ??pela seca em um futuro próximo", escreveu Petr Havlik, pesquisador do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados, que contribuiu para o relatório.