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Fabricantes de chocolate enfrentam dilema sobre sustentabilidade

Leanne de Bassompierre e Manisha Jha

14/10/2019 13h17

(Bloomberg) -- Fabricantes de chocolate estão diante de um dilema: ou apoiam um plano polêmico para aumentar a renda de agricultores ou correm o risco da suspensão de programas de sustentabilidade, cada vez mais exigidos por consumidores.

Na Costa do Marfim e Gana, que produzem mais de 60% do cacau mundial, o clima é de frustração devido à lenta implementação de uma estratégia aprovada em julho para cobrar um prêmio de US$ 400 a tonelada e, assim, ajudar a melhorar a renda dos agricultores. Esta semana, produtores ameaçaram suspender programas pelos quais fabricantes de chocolate podem certificar que seus grãos não são cultivados em florestas protegidas ou com o trabalho infantil forçado.

Fabricantes de chocolate não podem alegar que compram cacau sustentável e, ao mesmo tempo, adiar seu apoio a um plano que deve melhorar consideravelmente os meios de subsistência de pequenos agricultores, disse Yves Kone, diretor do regulador do setor na Costa do Marfim, o Le Conseil du Cafe-Cacao, conhecido como CCC. Os programas de sustentabilidade atendem apenas um pequeno número de agricultores, enquanto o novo mecanismo de preços beneficiará todos os produtores, de acordo com o CCC.

"Não podemos fingir que estamos trabalhando com os agricultores, investindo em sustentabilidade e nos recusando a pagá-los", disse Kone a repórteres na sexta-feira no centro comercial de Abidjan. "A sustentabilidade também significa pagar os agricultores e trabalhar juntos."

Garantia de renda

O plano de preços da Costa do Marfim e Gana tem como objetivo aumentar o preço médio do cacau a partir de outubro próximo para pelo menos US$ 2.600 a tonelada, dos quais os agricultores receberão cerca de 70% após deduzir os custos. Os contratos futuros de cacau de Nova York para entrega em dezembro são negociados, em média, a US$ 2.373 por tonelada este ano.

Analistas questionam se o plano vai funcionar porque as empresas não podem cobrir o prêmio. O incentivo para uma renda mais alta também pode levar os agricultores a plantar mais do que o mercado precisa, geralmente em terras desmatadas em áreas protegidas, e desestabilizar ainda mais os preços.

A Costa do Marfim tinha 16 milhões de hectares de florestas em 1960, mas o número caiu para 3 milhões de hectares em 2018. Gana está perdendo florestas em um ritmo mais rápido do que qualquer outro país do mundo, de acordo com a Global Forest Watch.

"O problema é que vamos incentivar uma maior produção do tipo ruim", disse Edward George, especialista independente em cacau. "Existe um risco real de superprodução e também produção insustentável e prejudicial."

--Com a colaboração de Marvin G. Perez e Isis Almeida.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórteres da matéria original: Leanne de Bassompierre em Abidjan, ldebassompie@bloomberg.net;Manisha Jha London, mjha13@bloomberg.net