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Caso extraconjugal motivou fraude do Credit Suisse na África

Patricia Hurtado

18/10/2019 17h23

(Bloomberg) -- Um profissional que atuava na área de banco de investimento do Credit Suisse Group declarou a um tribunal federal em Nova York que sua decisão de aceitar milhões de dólares em propinas foi influenciada por um relacionamento extraconjugal com uma subordinada.

Andrew Pearse, 49 anos, admitiu ter recebido pelo menos US$ 45 milhões por sua atuação na concessão de US$ 2 bilhões em empréstimos a empresas em Moçambique. Ele é a primeira testemunha do governo americano no julgamento de Jean Boustani, profissional de vendas do Privinvest Group que é acusado de fraudar investidores nos EUA.

Pearse revelou na quinta-feira que estava sentado perto da piscina de um hotel em Maputo, em 2013, quando Boustani ofereceu propina em troca de redução nas taxas de transação que o Credit Suisse cobraria para liberar um empréstimo.

"Eu me lembro claramente porque foi a primeira vez na vida que me ofereceram suborno", disse Pearse aos jurados no Brooklyn.

Pearse afirmou que estava tentando sair do Credit Suisse e se dispôs não somente a reduzir as taxas que seus colegas embolsariam com a operação, mas também pediu ajuda de Boustani para montar uma nova empresa junto com o presidente da Privinvest, Iskandar Safa.

Segundo ele, essas decisões foram influenciadas pelo romance dele com a subordinada Detelina Subeva, que também se declarou culpada e vai atuar como testemunha da acusação no processo contra Boustani.

O promotor-assistente Mark Bini perguntou a Pearse se o caso com Subeva afetou a decisão dele de sair do banco, em 2013. Ele respondeu que estava tentando esconder um "relacionamento amoroso muito profundo" de seus superiores.

"Nós dois éramos casados na época e era difícil ficarmos juntos se não estivéssemos viajando", contou Pearse. "Eu queria que aquele relacionamento continuasse. Eu queria sair do Credit Suisse. Eu queria estabelecer um relacionamento mais profundo com Subeva."

Boustani é acusado de montar um "esquema criminoso internacional descarado" que ajudou um dos países mais pobres do planeta a tomar bilhões de dólares em empréstimos para projetos marítimos duvidosos, incluindo um de combate a piratas.

A promotoria acusa representantes da Privinvest de inflar preços de equipamentos e serviços prestados a Moçambique, gerando dinheiro para o pagamento de propinas. Autoridades do país africano, executivos de empresas e profissionais de bancos de investimento roubaram aproximadamente US$ 200 milhões, segundo o governo americano.

Stephen Hauss, advogado da Privinvest, nega todas as irregularidades. "Obviamente, Pearse tem um acordo generoso com o governo e fala o que o governo quer que ele fale", afirmou ele.

Os jurados tiveram acesso a registros mostrando que a Privinvest fez regularmente depósitos de US$ 1 milhão na conta bancária da Pearse em Abu Dhabi. Em seu depoimento, Pearse revelou que dividiu com Subeva pelo menos US$ 2 milhões recebidos de Boustani.

Os empréstimos a Moçambique foram arranjados pelo Credit Suisse e pelo banco russo VTB. O dinheiro deveria ser empregado em atividades relacionadas a pesca de atum, estaleiros e segurança costeira, mas, segundo a promotoria, esses projetos nunca se concretizaram.

Moçambique processou Safa, bilionário de origem franco-libanesa, em Londres em agosto, sob acusações de fraude. Um porta-voz de Safa disse na época que o empresário nega qualquer irregularidade e que os tribunais britânicos não têm jurisdição sobre ele.

Ndambi Guebuza, filho do ex-presidente moçambicano Armando Guebuza, foi preso em fevereiro, em conexão com o escândalo dos empréstimos. Ele está se defendendo das acusações.

--Com a colaboração de Jake Rudnitsky.