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Ultrarricos ainda desejam produto 'mais desnecessário' do mundo

Valery Hache/AFP
Imagem: Valery Hache/AFP

Ben Stupples

22/10/2019 15h53

Diante de um píer banhado de sol em Mônaco, até mesmo os donos de fortunas imagináveis têm a sensação de que algumas pessoas têm mais dinheiro do que conseguem gastar.

Na semana passada, via-se no Porto Hércules um dos mais espetaculares conjuntos de embarcações: 125 iates com valor somado de US$ 4,4 bilhões.

O Monaco Yacht Show é outra demonstração de que fortunas gigantescas estão transformando o mundo de maneiras que viram o estômago dos comuns mortais. Pagar US$ 600 milhões de dólares por um barco?

Até Henk de Vries, um dos maiores construtores de iates do planeta, admitiu que ninguém precisa disso.

"Eu faço o produto mais desnecessário e faço isso tão bem que você deseja assim mesmo", declarou ele há uma década.

Em um momento de preocupante desigualdade e ansiedade com mudanças climáticas, é surpreendente o número de indivíduos extraordinariamente ricos que cobiçam super-iates. Há tantos deles que a própria família De Vries e seus principais rivais, os clãs Lurssen e Vitelli, enriqueceram a perder de vista.

"Você está essencialmente construindo um pequeno arranha-céu que flutua na água", explica Martin Redmayne, presidente da Superyacht Group, empresa de mídia com sede em Londres. Para ter sucesso, os armadores precisam de "paciência, tempo e paixão - paixão absoluta. É um jogo muito demorado".

Paolo Vitelli entrou no ramo em 1969, depois de vender uma boate. Ele usou o dinheiro para fundar a fabricante de iates hoje conhecida como Azimut Benetti.

Na época, movimentos sindicais agitavam a Itália, mas Vitelli importou barcos da Holanda e mais tarde passou a projetar e construir embarcações de luxo em maior escala.

O empresário partiu para a expansão quando a Benetti enfrentou problemas na década de 1980, em parte devido ao custo de desenvolvimento de Nabila, uma embarcação de 282 pés que já passou pelas mãos do traficante saudita de armas Adnan Khashoggi e de Donald Trump. Em 1985, Vitelli comprou a operação, logo transformada em construtora de barcos para os mais ricos entre os ricos.

Hoje em dia, os negócios vão novamente de vento em popa. A realeza do Oriente Médio, oligarcas russos, titãs de empresas de tecnologia e magnatas do setor imobiliário disputam iates cada vez maiores e mais avançados. Atualmente mais de 350 estão em construção, segundo a Superyacht Group, incluindo um de 466 pés que estará pronto no ano que vem. O nome do futuro proprietário é guardado a sete chaves.

A Azimut Benetti lidera o mercado mundial de iates em termos de volume. As vendas anuais (no caso, o valor da produção em andamento) chegaram a 900 milhões de euros (US$ 986 milhões) no ano fiscal encerrado em 31 de agosto. Os Vitelli são ricos, mas há interesse em vender o negócio.

"Certa vez, um fundo dos EUA me ofereceu um cheque de US$ 1,7 bilhão", lembra Vitelli durante uma entrevista no estaleiro da Azimut Benetti em Livorno, na Itália. Ele recusou a oferta. "O dinheiro destrói a família e tira o prazer de tocar a empresa. É preciso ter regras e simplicidade para amar coisas verdadeiras."

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