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Após WeWork, investidores preferem lucros a promessas

Sarah Ponczek e Lu Wang

24/10/2019 18h32

(Bloomberg) -- Há anos os investidores dos EUA aturam empresas que não dão lucro. E pagam muito por suas ações. Por que se preocupar com uma avaliação de cair o queixo se o futuro parece brilhante?

Esta linha de raciocínio começa a ser questionada. A paciência que parecia ilimitada dá sinais de desgaste.

"Estamos olhando para o futuro e dizendo que queremos comprar participação nesse mundo novo", disse Kim Forrest, diretora de investimentos da Bokeh Capital Management em Pittsburgh. "Mas o mundo novo não é lucrativo no momento."

Começou com a implosão da WeWork e se espalhou para ações de software. Investidores se cansaram de despejar dinheiro em ações caras. Passado um terço da temporada de divulgação de balanços, um tema viralizou, com lógica gritante: mostre lucro e será recompensado. Escorregue e será punido. Ninguém se impressiona mais com popularidade.

"A WeWork fez as pessoas acordarem", disse Chris Gaffney, responsável por mercados mundiais na TIAA. "A ideia é que é preciso ver empresas ganhando dinheiro e registrando lucros para realmente justificar alguns dos números que temos visto por aí."

Métricas que antes dominavam as atenções ? como indicadores de crescimento futuro ? estão sendo ignoradas, particularmente para as ações de tecnologia. Em vez disso, o foco é na primeira e na última linha dos balanços.

O Twitter é um bom exemplo. Os investidores costumavam procurar sinais de crescimento nas demonstrações financeiras da rede social, principalmente os números de novos usuários. No terceiro trimestre, o Twitter adicionou 6 milhões de usuários ativos, totalizando 145 milhões, um aumento de 17% em relação a um ano antes. Uma notícia destas provavelmente teria sido recompensada no passado.

Mas o resultado final e o faturamento da rede social ficaram aquém das expectativas dos analistas e a empresa apresentou uma projeção fraca para a receita no último trimestre. As ações chegaram a cair 20%, marcando seu pior dia desde julho de 2018, quando o Twitter revelou queda no número de usuários ativos e projetou mais perdas.

A Snap foi outra vítima. O serviço de mensagens com vídeos e fotos que desaparecem ainda não deu lucro desde a abertura de capital, em 2017. No entanto, a cotação das ações mais que dobrou este ano, embalada pela perspectiva de que o aumento de assinantes acabará impactando o resultado.

O aplicativo Snapchat superou a previsão de usuários diários ativos, porém a ação recuou quase 6% após os dados do terceiro trimestre mostrarem que o caminho até a lucratividade é tortuoso. Os investidores torceram o nariz para a previsão de receita da Snap no quarto trimestre, que ficou abaixo do esperado por analistas.

Com a Tesla, do bilionário Elon Musk, aconteceu o oposto. Analistas que antecipavam redução dos lucros erraram. A montadora registrou seu terceiro maior lucro por ação ajustado desde que abriu o capital. Os papéis dispararam 20% e tiveram o melhor desempenho diário em seis anos.

Uma dinâmica similar deu fôlego aos papéis da fabricante de software ServiceNow. As ações haviam caído um pouco na quarta-feira, em parte porque o faturamento com assinaturas ficou ligeiramente aquém do previsto. Quando a empresa divulgou as demonstrações financeiras completas após o fechamento do pregão, incluindo lucros que superaram a estimativa mais alta de qualquer analista, as ações saltaram mais de 7%.

--Com a colaboração de Luke Kawa, Vildana Hajric e Jeran Wittenstein.

Repórteres da matéria original: Sarah Ponczek New York, sponczek2@bloomberg.net;Lu Wang em New York, lwang8@bloomberg.net