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Santander pode enfrentar populismo da América Latina em casa

Charlie Devereux, Michael O'Boyle e Pablo Gonzalez

12/12/2019 12h28

(Bloomberg) -- Ana Botín entende um pouco sobre como lidar com populistas.

Durante mais de duas décadas, a presidente do conselho do Banco Santander, o maior credor da Espanha, ajudou a construir o maior império bancário no exterior na América Latina, navegando com sucesso em ondas de populismo antimercado de governos da região. Agora, Botín, de 59 anos, pode ter que enfrentar o populismo no próprio país.

Um governo de coalizão em discussão na Espanha pode unir o Partido Socialista Operário Espanhol (Psoe), liderado por Pedro Sánchez, e a legenda de esquerda Podemos, que defende aumentar impostos sobre os bancos para recuperar 60 bilhões de euros (US$ 66 bilhões) gastos no resgate do setor durante a crise financeira da Europa.

Sánchez ainda precisa de apoio de outras partidos para formar governo. Mas, se o Podemos fizer parte do novo governo, Botín precisará de todas suas habilidades diplomáticas aperfeiçoadas na América Latina para mitigar o impacto de qualquer medida populista em um momento em que bancos da Europa são atingidos por taxas de juros historicamente baixas, mudanças regulatórias e desaquecimento econômico na região.

"Faz sentido serem proativos", disse Mauro Guillén, professor da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia e autor de "Building a Global Bank: The Transformation of Banco Santander". "Eles não podem se dar ao luxo de estar do lado errado das coisas, devido aos outros desafios que estão enfrentando."

Relação com Iglesias

As ações de bancos espanhóis despencaram em 12 de novembro, quando Sánchez assinou um acordo de coalizão com o Podemos. Os papéis do Bankia, cuja privatização o partido antissistema quer adiar, caíram 4,6%. As ações do Santander tiveram queda de 4,5% nos dois dias seguintes ao anúncio.

Por enquanto, Botín não fez propostas em público ao Podemos. Questionado sobre um possível partido populista no poder, o Santander disse que está comprometido em "trabalhar estreitamente com os governos em todos os mercados em que operamos".

Como são o maior partido, os socialistas espanhóis guiariam a política do governo. Mas o aliado de coalizão Podemos pode ter alguma influência, e o líder Pablo Iglesias quer limitar investimentos de grandes fundos no setor imobiliário. Isso impediria, efetivamente, que um investidor de peso ficasse com os empréstimos de risco dos bancos.

Com a presença do Podemos no governo, Botín ficará frente a frente com um partido cujos líderes atuaram como assessores dos governos da chamada "maré rosa" na América Latina. Iglesias, sempre com o cabelo preso em um rabo de cavalo, aconselhou Hugo Chávez na Venezuela e chegou a morar com simpatizantes do movimento rebelde zapatista em acampamentos no México.

Raízes na Cantábria

As relações de Botín com Iglesias e o Podemos poderia ser beneficiada por seu cortejo de líderes populistas na América Latina, uma região que responde por 46% do resultado do Santander, igualando o nível da Europa, e que é o motor de crescimento do banco.

Botín cultivou uma relação próxima com o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, aproveitando as raízes do líder na região da Cantábria, norte da Espanha, onde o Santander foi fundado. Os dois se encontraram três vezes nos últimos dois anos após serem apresentados pelo presidente do governo regional, Miguel Ángel Revilla.

Botín estava entre os poucos líderes empresariais espanhóis que se encontraram com López Obrador quando, como candidato a presidente, ele visitou a Cantábria em 2017.

Botín, que passou os primeiros anos de sua carreira expandindo as operações de banco de investimento do Santander na América Latina, também aproveitou os contatos feitos durante esse período.

Ela foi a primeira executiva do setor bancário com a qual Alberto Fernández se reuniu quando ficou claro que ele venceria as eleições gerais para presidente na Argentina. O líder de esquerda, que tomou posse nesta semana, reuniu-se com Botín em setembro, em Madri, e novamente em Buenos Aires, no mês passado. Botín prometeu US$ 500 milhões em linhas de crédito para promover as exportações argentinas.

Lição brasileira

Em sua relação com os populistas, Botín arrancou uma folha da cartilha do pai. Quando Luiz Inácio Lula da Silva emergiu como um candidato credível à presidência em 2002, Emilio Botín estendeu a mão para o ex-presidente enquanto outros se afastavam. O Santander gastou R$ 1,8 milhão (US$ 948 mil no câmbio da época) para apoiar Lula, mais do que na campanha de Fernando Henrique Cardoso.

O investimento valeu a pena. O Santander comprou a unidade brasileira do ABN Amro, dobrando de tamanho no país. Ex-executivos do banco foram nomeados para cargos importantes no governo Lula e no Banco Central.

Botín deu continuidade à tradição, tendo encontrado Jair Bolsonaro duas vezes desde sua posse em 1º de janeiro - primeiro no Fórum Econômico Mundial, em Davos, e depois por 30 minutos em Brasília, em março.

O Brasil agora responde por 29% do lucro subjacente do Santander, e os negócios do banco no país continuam a crescer, contrastando com o fraco desempenho das unidades na Espanha e Reino Unido.

Em certa medida, a Espanha está protegida de medidas populistas devido ao rigoroso controle da União Europeia sobre a política fiscal. A continuidade de Nadia Calviño, ex-tecnocrata da UE, como chefe de política econômica também servirá como um "firewall" contra as propostas mais radicais do Podemos, disse Guillén, da Wharton.

--Com a colaboração de Simone Iglesias.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórteres da matéria original: Charlie Devereux em Buenos Aires, cdevereux3@bloomberg.net;Michael O'Boyle Mexico City, moboyle7@bloomberg.net;Pablo Gonzalez em São Paulo, pgonzalez49@bloomberg.net