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"Meu teste de DNA encontrou um irmão que nunca irei conhecer"

Douglas Lytle

26/12/2019 15h27

(Bloomberg) -- Se você for fã de programas de televisão sobre genealogia, o teste de DNA recebido de presente pode ser a melhor maneira de abrir um leque de informações sobre você e seus ancestrais. Ou, se você for como eu, pode trazer notícias inesperadas e que transformarão sua vida.Meu teste de DNA, realizado no início de 2018, mostrou que minha mãe deu à luz um menino em 1958, sete anos antes de minha chegada, que foi oferecido para adoção. Seus novos pais lhe deram o nome de Richard. As dúvidas que tinha foram eliminadas quando vi uma foto dele pela primeira vez. Era como se eu estivesse olhando para mim mesmo.

Portanto, pense bastante ao decidir se deseja compartilhar o código íntimo que define quem você é, pois talvez poderá se deparar com enormes problemas emocionais que nunca conseguirá resolver.

Você pode achar que as gerações anteriores não foram honestas sobre seus relacionamentos. As religiões podem ser questionadas, e algumas pessoas podem não gostar de ser sobrecarregadas com detalhes relacionados à saúde, incluindo tendências para cânceres raros ou Alzheimer de início precoce. Sempre existe a chance de as informações serem incorretas: meu teste sugeriu que estou predisposto a consumir menos cafeína. Não é verdade.

Minhas próprias experiências foram complexas, mas, em sua maior parte, alegres. Elas me ajudaram a entender meu passado e as forças que moldaram a vida conturbada de minha mãe, que faleceu muito cedo em 1992, depois de anos de alcoolismo e dependência. Amo minha nova família ampliada e encontrei uma sensação de paz que faltava em minha vida. Quase.

Richard morreu em 1996, possivelmente devido a um câncer agressivo causado por sua exposição a toxinas na Operação Tempestade no Deserto, quando serviu como capitão com fuzileiros navais dos EUA. Sua morte me roubou a chance de um vínculo fraterno que, como filho único, eu claramente desejei ao longo de minha vida sem perceber.

Relógios internos

Depois de passar um tempo com a família dele, pude desenhar um retrato de sua personalidade que, de muitas maneiras, é estranhamente semelhante à minha, com hábitos, emoções e desejos compartilhados. Não podíamos ser menos parecidos na forma como fomos criados, mas nossos relógios internos parecem bem alinhados.

Com base no número de artigos que li sobre testes de DNA que produzem resultados inesperados, minha experiência pode não ser tão incomum, especialmente porque a popularidade dos testes de DNA aumentou. Há um Reddit dedicado ao assunto, e consegui encontrar três pessoas no meu feed do Facebook que descobriram esquisitices em seus testes. Uma mulher me disse que havia descoberto que fora adotada e que seus pais não haviam contado a ela. Outra desenvolveu um relacionamento com sua meia-irmã, mas foi cruelmente rejeitada pela mãe biológica.23andMe, a empresa com sede em Sunnyvale, Califórnia, que selecionei para o teste de DNA, diz que não possui dados de quantas pessoas descobriram resultados surpreendentes, mas Christine Pai, gerente de comunicações da empresa, diz que treinou seus representantes para ajudar clientes em pânico a ficarem em paz com suas descobertas.

A opção de compartilhar dados leva tanto tempo quanto a aceitação dos termos e condições de um software, embora a 23andMe e outros serviços digam que alertam claramente todos os clientes.

Leia o manual e lembre-se: um serviço de teste de DNA oferece apenas dados, não tem sentimentos. Portanto, não é sobre a tecnologia, mas o que você escolhe fazer com ela. Parentes e entes queridos podem não ser capazes de esclarecer quaisquer mistérios que encontrar.

Segredo precioso

Após minha descoberta, liguei às pressas para os poucos parentes restantes que sabiam de alguma coisa. Imaginei-os guardando esse segredo precioso todos esses anos e a revelação que se seguiria. Tudo o que consegui foram silêncios atordoados. "O maior mistério desde o assassinato de JFK", observou um primo.Para a maioria, os resultados do DNA serão apenas um detalhe do dia, um novo tópico de conversa do próximo jantar e outra informação que pode ser jogada em uma caixa com as fotos da família e passada para a próxima geração. Quanto a mim, passei o tempo me ajustando, aprendendo a conviver com minhas novas circunstâncias e usando o tempo para investigar profundamente meu passado, na esperança de me entender melhor.

Mas, independentemente de quantas caixas eu abra no meu sótão de fotos do passado, não encontrarei o que estou procurando, uma foto minha e de meu irmão juntos. Nem mesmo o teste da 23andMe pode fazer isso acontecer.

(Douglas Lytle é editor da Bloomberg Intelligence em Londres)

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net