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Ações da Vale se recuperam, mas desafios persistem

Vinícius Andrade e Sabrina Valle

16/01/2020 08h56

(Bloomberg) -- Nas semanas seguintes ao rompimento da barragem em Brumadinho, em janeiro de 2019, alguns dos maiores investidores brasileiros aproveitaram para comprar ações da Vale, apostando que o papel se recuperaria após sua maior queda já registrada em um único pregão.

Um ano depois, a aposta trouxe frutos, mas ficou uma ressalva: as ações se recuperaram, já a reputação da Vale, não. Enquanto a maior produtora de minério de ferro do mundo -- assim como outras mineradoras -- já teve que lidar com algumas questões ambientais no passado, não há como negar que as credenciais verdes de uma empresa se tornaram mais importantes do que nunca.

"Com o tema da sustentabilidade ficando cada vez mais relevante para o investidor global, minha maior preocupação é uma questão de prazo um pouco mais longo, se a Vale vai conseguir mudar a sua imagem", disse Leonardo Rufino, gestor da Pacifico Gestão de Recursos. "Se não conseguir, o risco é a Vale acabar se sendo uma empresa barata para sempre."

A Pacifico, assim como SPX e Vinland Capital, está entre gestoras que compraram Vale após o desastre que varreu cerca de um quarto do valor de mercado e da produção da empresa. Embora as ações tenham fechado no maior nível desde o acidente nesta terça-feira, o valuation da empresa aponta para uma história diferente. A Vale ainda é negociada a um desconto de pelo menos 20% em relação a pares como BHP e Rio Tinto.

A exposição a ações da Vale e da holding Bradespar do fundo Pacifico Ações subiu de cerca de 8% para cerca de 12% da carteira nas semanas após o rompimento da barragem, de acordo com Rufino. Enquanto o fundo já zerou sua posição em Bradespar, a Vale segue entre as cinco principais posições.

Espaço para subir

Os fundamentos sinalizam que ainda há espaço para apreciação adicional das ações, de acordo com Rufino. A empresa está gerando caixa e analistas de casas como Bradesco BBI, Scotiabank e Goldman Sachs veem boa chance de a companhia voltar a pagar dividendos em algum momento em 2020. Além disso, Rufino vê boa parte dos riscos relacionados a Brumadinho já no preço.

A Vale tomou diversas medidas para reparar sua imagem após o acidente. A empresa trocou seu CEO, comprometeu-se a descomissionar o tipo de barragem que falhou e construiu uma unidade de tratamento para despoluir reservas hídricas afetadas.

Em reuniões com investidores no mês passado, a Vale focou em suas iniciativas relacionadas ao meio ambiente, incluindo projetos para ajudar a companhia a ser uma empresa carbono neutro e o lançamento de um portal com suas iniciativas da área de sustentabilidade.

A Vale não quis comentar.

"A empresa sinaliza que está tomando o máximo de cuidado possível, há muita provisão feita e a prioridade é cuidar de Brumadinho," disse Rufino. "O desconto para as mineradoras estrangeiras não se justifica."

Uma observação urgente

Com o mundo cada vez mais sensível a questões ambientais, gestores estão direcionando mais recursos para investimentos que adotam as melhores práticas ambientais, sociais e de governança. No ano passado, a Church of England se desfez das ações da Vale e vetou investimentos na mineradora através de um processo de exclusão ética.

A BlackRock, que aumentou sua fatia na Vale para acima de 5% em dezembro, incluiu uma observação urgente em sua carta anual aos executivos: as mudanças climáticas transformarão as finanças globais mais cedo do que imaginam. O diretor-presidente Larry Fink disse que sua empresa irá tomar medidas para endereçar a questão em centenas das empresas nas quais investe.

No Brasil, a própria reputação do país não está ajudando, com o presidente Jair Bolsonaro questionando a necessidade de ação para combater as mudanças climáticas. Esse pano de fundo pode continuar a limitar quaisquer ganhos adicionais para a mineradora adiante.

"Em algum momento, a gente precisa contar com alguma expansão de múltiplo", disse Rufino.

Repórteres da matéria original: Vinícius Andrade em Sao Paulo, vandrade3@bloomberg.net;Sabrina Valle em Rio De Janeiro, svalle@bloomberg.net